São Paulo
Em 2026, o palhaço Hugo Possolo completa 45 anos de carreira. O grupo de teatro Parlapatões, do qual é fundador, faz 35, e seu espaço na praça Franklin Roosevelt, no centro de São Paulo, duas décadas.
Possolo estreou na última semana o monólogo “Idiota Convicto” para iniciar as comemorações das datas, que passaram batidas no último semestre.
Hugo Possolo em seu novo solo ‘Idiota Convicto’.
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Divulgação Parlapatões
Sozinho no palco, ele interpreta cenas que ganhou de presente de outros dramaturgos. Na esquete de Luís Alberto de Abreu, um homem encontra uma argola viva no meio da calçada, para então perceber que se trata de uma pessoa que virou do avesso. Michelle Ferreira escreveu sobre um professor de cinema que trata a vida como um roteiro de filme. Ana Saggese e Maíra Dvorek retrataram um Deus descontrolado e autoritário. E Sérgio Roveri, um pai que tolhe os sonhos do filho.
O que amarra os episódios é a percepção de que o mundo está menos tolerante e mais agressivo.
Crítico à extrema-direita e aos conservadores, ele também direciona sua análise a si e às pessoas de seu campo político. “A esquerda também não compreende o que está acontecendo no mundo, e o oprimido muitas vezes imita a lógica do opressor. A gente tem que rir primeiro de si mesmo, como todo palhaço faz, e só depois rir do outro, para mostrar que todos temos nossas contradições.”
O ator defende o potencial político do humor e não costuma fugir dos temas cabeludos em suas apresentações, mas isso não o impede de reprovar a arte que chama de panfletária. Para ele, o teatro deve alimentar a sensibilidade e o pensamento crítico, não impor ideias. “Senão, estaremos fazendo doutrinação, que é o que criticamos”, afirma.
O mesmo senso crítico vale para pensar os limites do humor. “A gente tem um poder grande em cena, e as escolhas que fazemos dizem muito sobre quem somos e o que pensamos”, diz. “Todos os temas são permitidos para a arte, senão ela estaria sem a sua capacidade maior. A questão é como nos posicionamos diante deles.”
Os Parlapatões foram batizados a partir de “Parlapatões, Patifes & Paspalhões”, peça escrita por Possolo que fez sucesso em 1991, quando surgiu o grupo. Dos primórdios, segue ali também Raul Barreto, que se juntou à trupe em 1993 e hoje ajuda Possolo a coordená-la. Desde o começo, Os Parlapatões se dedicam à comédia e utilizam elementos do circo e do teatro de rua.
Possolo escreve a maioria de suas montagens originais, mas a trupe também fez sucesso com textos de outros autores. Talvez o mais importante tenha sido “PPP@WllmShkspr.Br”, versão de uma peça americana que abrevia a obra de William Shakespeare em uma só apresentação. Estreada em 1998, circulou pelos principais festivais de teatro brasileiros e ajudou a criar a fama nacional do grupo.
Em 2006, já com 15 anos, os Parlapatões se firmaram nos arredores da praça Roosevelt, na vizinhança de Os Satyros. Desde então, brigam para se manter ali.
Possolo acredita que a presença do teatro é um incentivo para que pessoas ocupem e aumentem a segurança dos arredores da Roosevelt. Apesar de não ser contrário a discutir a privatização da praça, critica modelos que transformam lugares públicos em espaço de consumo —o que, para ele, alteraria a diversidade dos grupos que a frequentam.
O ator também afirma que o diálogo é imperativo nesse processo. No começo de junho, a Prefeitura de São Paulo revelou a intenção de conceder o espaço à iniciativa privada, surpreendendo moradores, frequentadores e empresários da região, que afirmam ter descoberto sobre o projeto por meio da imprensa.
Todos esses assuntos preocupam Possolo, e seu teatro não é indiferente a essas questões. Mas ele reforça que, acima de tudo, sua intenção é divertir o público —afinal, ele é um palhaço.
Além da peça em cartaz, os Parlapatões realizam neste ano a sétima edição do Palhaçada Geral, festival de palhaçaria que costuma reunir dezenas de atrações e contar com convidados internacionais. Para o semestre, planejam ainda uma mostra com várias obras do repertório da companhia e um novo espetáculo com elenco volumoso. Os detalhes, no entanto, ainda são segredo.
Idiota Convicto
Espaço Parlapatões – pça. Franklin Roosevelt, 158, Consolação, região central. Sáb., às 22h. Até 19/8. Ingr.: R$ 70 em sympla.com.br















