Didier Eribon, influência de escritores de autoficção, diz que jamais fez autoficção

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Didier Eribon, influência de escritores de autoficção, diz que jamais fez autoficção


Didier Eribon costuma ser associado à autoficção, gênero literário hoje celebrado por leitores e críticos, que colocam autores como Annie Ernaux e Édouard Louis no mesmo balaio. Eribon, porém, rejeita essa relação.

“Se você usa esse termo, quer dizer que parte do meu trabalho é ficcional, o que não é verdade”, afirma. O escritor francês de 73 anos está em seu apartamento em Paris, de onde conversa por vídeo com a reportagem da Folha. Há décadas, sua obra desafia mesmo as classificações.

Eribon é autor do clássico “Retorno a Reims”, no qual descreve sua infância em uma família da classe trabalhadora no nordeste da França e sua ascensão como intelectual em Paris. É um trabalho de sociólogo, mas escrito em linguagem literária.

Nos últimos anos, o autor passou a reivindicar um termo que lhe parece mais adequado: “sociobiografia”. Tanto que esse foi o título que deu ao seu último livro, que chega agora ao Brasil pela Âyiné, com tradução de Luzmara Curcino.

No formato de perguntas e respostas, o livro registra uma série de entrevistas que Eribon concedeu a Geoffroy Huard, seu antigo aluno. Foram diversos encontros, trocas de email e conversas por Zoom para chegar ao texto final, no qual o escritor reflete sobre meio século de trajetória intelectual.

“As pessoas podem ler ‘Retorno a Reims’ como quiserem. Não quero tentar controlar isso. Mas não acho que ‘autobiografia’ seja o melhor termo”, afirma. “Não é que eu reclame. Mas, quando me perguntam se aceito o rótulo, digo que não.”

Vale dizer que outros autores famosos por sua “autoficção” —como Ernaux e Louis— também já rejeitaram essa descrição, preferindo termos como “autobiografia impessoal” e “romance autobiográfico”.

Eribon nasceu na comuna de Reims, se mudou para Paris na juventude e estudou na Sorbonne. Como jornalista, entrevistou alguns dos intelectuais mais importantes do século, como Michel Foucault e Pierre Bourdieu, dos quais acabou amigo. Despontou em 1989 ao publicar uma importante biografia de Foucault.

Dez anos depois, consolidou sua carreira com um ensaio sobre a homossexualidade. Mas foi “Retorno a Reims”, de 2009, que o firmou de vez no panorama literário francês.

Eribon conta que começou com uma tentativa de autoanálise. Queria entender sua trajetória da classe trabalhadora à elite intelectual. “Percebi que toda autoanálise também é uma análise histórica e sociológica”, afirma. “Precisei descrever minha família, meu meio social e minha educação.”

A ideia central de “Retorno a Reims” é que as condições sociais de largada —no seu caso, a pobreza— condicionam a vida de uma pessoa. É algo de que dificilmente se escapa.

“Quando cheguei a Paris, tinha um sotaque da classe trabalhadora do nordeste da França. Tive que desaprender meu modo de falar e aprender a maneira mais legítima e sofisticada”, conta.

Não é que Eribon não tenha aprendido. Mas, de alguma maneira, “o passado segue na gente”. Foi reprovado duas vezes no exame que lhe permitiria dar aula em escolas, o que o levou a seguir carreira no jornalismo. “Eu ainda não tinha dominado os códigos sociais do sistema de ensino. Culturalmente, não era bom o suficiente.”

Começou o doutorado, sem dinheiro para pagar aluguel nem comprar comida. Teve de interromper a escrita da tese e dedicar-se ao trabalho remunerado, o que significou que, à época, não pôde se tornar professor universitário.

Muito mudou conforme ele ganhou fama no jornalismo e se consolidou na academia. Lecionou em grandes universidades americanas e francesas. Ainda assim, o passado.

“Estou falando com você em um apartamento que alugo. Não estou reclamando. Mas nunca herdei nada dos meus pais e nunca consegui comprar um apartamento em Paris”, diz.

Enquanto isso, ouve alguns de seus amigos discutindo o que fazer com suas casas no interior da França. “Não digo que não podemos ser amigos. Mas há coisas em nossas vidas que foram diferentes. Quando eles contam histórias do seu passado, me lembro do meu próprio e vejo como somos diferentes.”

Outro ponto central de “Retorno a Reims” é a homossexualidade. “Quando eu tinha 16 anos, não era o típico cara durão dos subúrbios da classe trabalhadora. Já sabia que eu era gay, mas não podia contar para ninguém.”

Decidiu buscar uma identidade que não se baseasse na ideia de masculinidade. “Comecei a ler Marguerite Duras, o que era uma maneira de ser gay sem dizer isso. Queria me reinventar, aderindo a uma cultura mais sofisticada.”

Uma das razões para seu sucesso foi dizer tudo isso em estilo literário, próximo ao da ficção — o que não quer dizer, insiste, que escreva ficção. “Sou sociólogo, filósofo e teórico”, afirma. “O que tento fazer é retirar a sociologia da academia. É um livro de sociologia sem as normas acadêmicas, de que me emancipei.”

Quer se chame “autoficção” ou “sociobiografia”, o gênero é hoje bastante popular. O próprio Eribon cita diversas vezes na entrevista o caso de Édouard Louis, um de seus principais herdeiros intelectuais, hoje seu amigo íntimo, e elogia o trabalho do brasileiro José Henrique Bortoluci, do livro “O que É Meu”.

Credita o sucesso desse tipo de livro, em parte, ao fato de fornecerem ferramentas da sociologia a um público amplo, que pode usá-las para se compreender.

Só isso explica uma cena que ocorreu dias antes da entrevista. Após uma palestra na Alemanha, Eribon foi abordado por um aluno chinês que lhe disse que “Retorno a Reims” tinha sido fundamental para ele.

“Como é possível que meus livros sejam lidos na China, no Brasil e na Argentina e que leitores me digam que eu contei suas próprias histórias? Mesmo que seus passados sejam diferentes do meu, os leitores ainda assim encontram conceitos relevantes para si.”

O repórter pergunta se isso significa que fatos sociais, como a classe e a sexualidade, têm algo de universal. “É muito estranho. No meu trabalho, insisto nas especificidades sociais e nacionais. Mas você tem razão: há muitas coisas que não são tão específicas.”

“Essas estruturas, experiências e emoções são as mesmas. A homofobia, a existência da classe trabalhadora, o sistema educacional… Tudo isso que está no centro dos meus livros pode ser lido da mesma maneira na Coreia do Sul, na Argentina ou no Reino Unido.”

Também é comum pelo mundo, hoje, a migração de eleitores da classe trabalhadora para partidos da extrema direita, algo que Eribon analisou já em “Retorno a Reims”, mostrando como sua família trocou os social-democratas por Marine Le Pen.

O autor culpa os próprios partidos socialistas por terem abraçado “discursos neoliberais”, deixando um vazio ocupado pela direita radical. “Chamaram-me de profeta do desastre. Mas não é que eu seja um profeta. Apenas vi esse processo começar e entendi que era algo enorme e bastante perturbador.”



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