História oral mostra como Paul McCartney construiu os Wings após os Beatles

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História oral mostra como Paul McCartney construiu os Wings após os Beatles


No começo de “Wings – A História de uma Banda em Fuga”, Paul McCartney retorna a um boato que o perseguiu no fim dos anos 1960: o de que ele estaria morto.

Quase seis décadas depois, ele acredita que havia uma espécie de verdade naquela fantasia coletiva. Aos 27 anos, diante do fim dos Beatles, de disputas judiciais e da dissolução de uma parceria que marcara sua vida desde a adolescência, ele era um homem sem saber o que fazer a seguir.

“Eu estava morto… um homem de 27 anos de idade, prestes a tornar-se ex-Beatle”, diz o astro.

“Wings” é uma história oral editada pelo historiador Ted Widmer, sem um texto corrido, mas com falas que vão montando o quadro geral —um formato inaugurado no pop pelo ótimo “Mate-Me por Favor”, de Legs McNeil e Gillian McCain.

O livro, que sai aqui em edição caprichada, com capa dura e muitas fotos, foi construído a partir de entrevistas novas e antigas, sobretudo do material reunido pelo cineasta Morgan Neville para um documentário ainda inédito sobre a banda.

Linda McCartney, os filhos do casal, Denny Laine, Denny Seiwell, músicos, técnicos, jornalistas e figuras da órbita beatle ajudam a compor uma memória coletiva, embora rigorosamente controlada pela voz dominante do próprio Paul —que também assina um prefácio de dez páginas.

Esse formato oral é, ao mesmo tempo, sua qualidade e sua limitação. Ele traz um movimento de uma longa conversa, cheia de histórias saborosas e depoimentos cruzados, mas que raramente confrontam as versões de McCartney.

Paul surge como o homem que precisou abandonar a posição de astro máximo do pop para reaprender a viver, gravar e liderar uma banda. Seus erros, ressentimentos e crises aparecem, mas quase sempre já pacificados pela perspectiva de quem olha para os anos 1970 de uma distância confortável.

A Escócia é o centro emocional desse recomeço. Paul e Linda se refugiaram numa fazenda remota em Kintyre, onde ele construiu uma mesa, aprendeu a fazer piso de concreto, tosquiou ovelhas, plantou vegetais e improvisou uma banheira num tanque usado para limpar máquinas de ordenha. “Nenhum trabalho parecia pequeno ou grande demais”, diz ele.

Não há grande tese psicológica sobre a recuperação de Paul: há um ex-Beatle tentando fazer uma mesa sem pregos, cortando árvores, mexendo em terra e gravando fragmentos de canções numa máquina de quatro canais instalada em casa.

A música volta nesse ambiente. “McCartney”, de 1970, aparece como o disco de alguém que não queria fazer um novo “Sgt. Pepper’s”, mas voltar ao essencial e tocar todos os instrumentos, aproximar microfones, ajustar pratos de bateria e registrar ideias sem a obrigação de produzir um clássico.

“Maybe I’m Amazed”, escrita para Linda, concentra a ambivalência daquela fase: o encanto de um casamento recente e o medo de uma vida que ainda não tinha forma.

Linda, aliás, aparece muito mais que a mulher do líder. O livro insiste em apresentá-la como parceira de fuga, de família, de trabalho e de criação. Ela participa das harmonias, fotografa capas, acompanha as crianças nas viagens e entra para a banda mesmo sem formação técnica comparável à dos outros músicos.

As críticas que recebeu são relembradas como sintoma do machismo do rock. Há, parece, um esforço de reparação histórica: Linda aparece como uma figura que sustentava Paul emocionalmente e que ajudou a criar a identidade visual, doméstica e sonora do Wings.

Lemos que o Wings não foi concebido como continuação dos Beatles, mas como seu oposto possível. McCartney diz que não queria formar um “Beatles 2.0”, nem montar um supergrupo para manter a estatura que tinha.

Preferiu começar de baixo: ensaiar na Escócia, aceitar uma formação instável, tocar em universidades, levar os filhos na estrada e transformar a vida familiar em método de trabalho.

O resultado foi uma banda muitas vezes tratada como capítulo menor de sua carreira, mas que lhe devolveu o prazer de funcionar dentro de um grupo.

O livro não foge dos episódios mais conhecidos. O assalto em Lagos, durante as gravações de “Band on the Run”, quando Paul e Linda perderam as fitas demo e tiveram de reconstruir canções de memória, ganha peso de trauma.

O boato de que ele estava morto vira uma piada amarga. A tensão com John Lennon reaparece em torno das letras das canções “Too Many People” (de McCartney) e “How Do You Sleep?” (de Lennon).

E a prisão de McCartney no Japão, em 1980, é apresentada como o encerramento de um ciclo que, segundo ele, já vinha perdendo impulso antes mesmo da detenção.

“Wings” não desmonta a hierarquia que coloca Lennon e os Beatles no centro da história do pop. Faz algo mais específico: mostra Paul McCartney tentando escapar dessa centralidade, mesmo sabendo que nunca conseguiria deixá-la inteiramente para trás.



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