Pois bem, hoje vive-se a incerteza sobre quem ganhou, quem está ganhando ou quem ganhará essa guerra – se é que haverá ganhadores….
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O alforge, a pedra e a funda
“Davi meteu a mão no alforge, tomou uma pedra e, com a funda, arremessou-a. O filisteu, ferido de morte, caiu com o rosto em terra. Assim prevaleceu Davi contra Golias, com uma funda e com uma pedra…” (Samuel 1:17)
Pareceu-nos que, em pouco tempo, a destruição ficaria para trás e a hegemonia da superpotência, ao lado do aliado de primeira hora no Oriente Médio, far-se-ia presente mais uma vez.
Afinal, o poder de combate dos Estados Unidos da América e do Estado de Israel, comparado ao da República Islâmica do Irã, não deixava dúvida, e ainda não deixa, sobre quem combatia com enorme vantagem.
Caças com capacidades tecnológicas superlativas, mísseis de letalidade e precisão inéditas, informações de combate reforçadas por inteligência artificial e por agentes de campo, enxames de drones a obscurecer as defesas antiaéreas iranianas, indiscutível competência cibernética e tantos outros instrumentos tornavam o resultado uma verdadeira “pule de 10”.
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Pois bem, hoje vive-se a incerteza sobre quem ganhou, quem está ganhando ou quem ganhará essa guerra – se é que haverá ganhadores – como concebemos nos embates convencionais.
O cessar-fogo exigido pelo Presidente Trump, o sentar-se à mesa de negociação, o ir e vir de declarações, a falta de apoio de aliados históricos, tudo parece um movimento de busca por um fato que permita propalar que a guerra acabou e que o inimigo foi inapelavelmente derrotado.
Sei que essa afirmação, aos olhos dos não iniciados nas guerras assimétricas, pode soar como tolice. Quem, em sã consciência, enfrentaria, e ao menos imporia desgaste, à Águia Americana?
Mas a história está aí para demonstrar que essa possibilidade de o fraco vencer o forte existe.
Em seu livro COMO OS FRACOS VENCEM GUERRAS – UMA TEORIA DO CONFLITO ASSIMÉTRICO (BIBLIEX, 2021), Ivan Arreguín-Toft oferece alguns exemplos concretos de Davi vencendo Golias: a Guerra no Estado Livre de Orange (1899-1902), a Guerra Ítalo-Etíope (1935-1940), a Guerra do Vietnã (1965-1973) e a Guerra da Rússia no Afeganistão (1979-1989).
Em seu estudo, o autor estabeleceu uma tipologia que enquadra os casos. Pinço apenas dois itens.
A natureza do ator e a aversão social democrática.
Atores autoritários tendem a ser mais eficientes na guerra assimétrica do que os democráticos. Segundo Ivan, os atores democráticos têm dificuldades de vencer essas pelejas – principalmente se prolongadas – porque a liderança política é pressionada pela sociedade a evitar sacrifícios que recaem sobre essa mesma sociedade.
Assimetria de interesses.
A certeza da vitória pela assimetria de poder entre contendores, por vezes, se frustra por uma assimetria de interesses. Esclarece o autor que elevado poder pode corresponder a baixo interesse, baixo interesse conduz a maior vulnerabilidade e maior vulnerabilidade reduz a probabilidade de vitória.
É fato que países democráticos dispõem de imprensa livre, que expõe à sociedade erros e acertos na condução da guerra, tornando a opinião pública um agente censor.
É fato também que quanto maior o poder de um país, maior pode ser sua tendência à arrogância e ao desprezo pelo adversário mais frágil, levando-o a abdicar do uso pleno dos meios necessários para atingir prontamente os fins pretendidos.
Contudo, mesmo diante dessas constatações, é preciso considerar a possibilidade de um enorme filisteu nos desafiar arrogantemente. Somos um Davi capaz de enfrentá-lo?
Vejamos um exemplo de como os países da Europa – que obviamente não são Davis – se preparam para esses confrontos.
Em palestra no IUM (Instituto Universitário Militar), em Portugal, o embaixador alemão acreditado naquele país declarou que, apesar das pressões sociais envolvidas, a decisão política do governo da Alemanha está clara: A SEGURANÇA É PRIORITÁRIA. Por óbvio, eles não consideram a Federação Russa um filisteu
Aqui, a meu juízo, o dilema social versus soberania também se faz presente, mas, no momento, a discussão deveria objetivar a motivação da sociedade para encarar desafios como esses. Na Europa, isso já foi superado.
Trata-se de convencer nosso povo, diante de uma ofensiva previsível, de que a guerra, ou a hipótese dela, exigirá sacrifício para nos assegurar um futuro ao menos possível de sonhar.
Transformando a ideia em ação, trata-se de o Estado, por meio de suas lideranças, agir, prover e comunicar eficazmente, gerando comprometimento de toda sociedade (o alforge da nação) na costura da funda (suas forças armadas) e na escolha das pedras (os meios disponíveis) com as quais ela mesma enfrentará os antagonistas.
Voltando ao conflito EUA-Israel-Irã, os iranianos mostraram-se capazes de resistir no sofrimento para a manutenção de seus objetivos políticos-teocráticos? Ou seja, lutar pela sobrevivência como nação? Por enquanto, parece que sim.
Nem sempre será preciso arremessar pedras. Mas tê-las no alforge, polidas e bem dimensionadas, com Davis aptos a usar fundas para arremessá-las é o primeiro passo contra os Golias.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva
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