São Paulo
O espetáculo “Anywhere” faz nova temporada em São Paulo de 20 de junho a 12 de julho no Espaço Cia da Revista, após estreia com ingressos esgotados no Sesc Ipiranga.
Idealizada, escrita e interpretada por Ricardo Corrêa, sob direção de Davi Reis, a peça da Cia. Artera de Teatro une depoimento real, ficção e memória para tratar do refúgio e da imigração de pessoas LGBTQIA+.
O ator Ricardo Corrêa em ‘Anywhere’, monólogo no qual memória, depoimento e ficção se mesclam
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Renato Grieco/Divulgação
A narrativa acompanha um homem retido em um aeroporto à espera de um documento que definirá se ele pode seguir, permanecer ou desaparecer. A partir desse não lugar vigiado e burocrático, o enredo reconstrói a história do personagem e de outros pessoas em trânsito.
A pesquisa para a peça começou em 2019, motivada por denúncias de violência contra homossexuais na Chechênia. “Fiquei muito impactado ao saber que pessoas ainda são perseguidas, presas, torturadas e obrigadas a fugir de seus países”, diz Corrêa.
O autor investigou relatórios de entidades como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch e, em seguida, realizou um chamamento público em São Paulo, que o conectou a imigrantes como Lara, de Moçambique; Abel, da Venezuela; Lufer, do Peru; e Navid, um refugiado iraniano gay.
“Houve momentos em que a realidade atravessou a ficção. Eu já escrevia sobre um homem preso em um aeroporto quando conheci a história de Navid, que havia vivido exatamente essa situação. Foi um daqueles momentos em que a ficção encontra a realidade de maneira impossível de ignorar.”
A transposição dos relatos para a cena exigiu um exercício de escuta para evitar a espetacularização da dor. Como homem gay, artista da periferia e filho de migrantes —de um pai nordestino e de uma mãe que não teve acesso à alfabetização—, Corrêa usou sua bagagem sobre a busca por pertencimento para se aproximar das histórias.
Também recusou o estereótipo do sofrimento passivo. “Mais do que falar sobre vítimas, eu queria falar sobre pessoas: suas dores, mas também seus afetos, desejos, contradições e capacidade de reconstruir a própria vida. Porque, de diferentes maneiras, muitos de nós conhecemos a sensação de estar em trânsito”, diz.
O monólogo exige do ator um esvaziamento das funções de autor e idealizador para se colocar à disposição da experiência física. O intérprete funciona como zona de passagem para as histórias de outras pessoas, apoiando-se na palavra e nos movimentos. “O corpo precisa sustentar a viagem inteira, atravessando estados físicos e emocionais, carregando presenças, ausências e deslocamentos”, explica.
A pesquisa de Corrêa para a peça foi contemplada pelo ProAC do Governo do Estado de São Paulo e gerou um livro com a dramaturgia, além de um documentário no YouTube. No palco, contudo, o trabalho ganha outra dimensão: a presença, do coletivo, onde aeroporto imaginário dá espaço para a discussão sobre o que aproxima os seres humanos.
Com duas décadas de trajetória e indicação anterior ao Prêmio APCA por “Monstro”, a Cia. Artera de Teatro mantém o histórico de investigar temas marcados por estigmas, como o envelhecimento gay (“Bichados”) e a subcultura ligada ao HIV (“Bug Chaser”). Em “Anywhere”, o palco assume a função de criar encontros e combater o apagamento de histórias que raramente chegam ao debate público:
“Não porque o teatro resolva os problemas do mundo, mas porque ele cria encontros. Quando uma história é compartilhada, quando uma pessoa se vê representada ou quando alguém enxerga a humanidade de uma experiência distante da sua, alguma coisa se transforma. Se existe um território seguro em ‘Anywhere’, talvez ele esteja nesse encontro.”
Anywhere
Espaço Cia. da Revista – al. Nothmann, 1.135, Campos Elíseos, região central. 16 anos. Estreia: sáb. (20). Sáb., às 20h. Dom., às 19h. Até 12/7. Ingr.: R$ 50 (inteira) em Sympla












