“Mais cedo ou mais tarde, todas as utopias se transformam em romances históricos”, escreve Gueorgui Gospodinov em um livro que delineia, abraçando uma ficção ousada e os solavancos da memória, a maneira como se dá esse processo tumultuado.
Ou talvez seja mais preciso dizer que o interesse primordial de “Refúgio do Tempo” é analisar como a história pode, também, se transformar em utopia.
O romance búlgaro, que chega ao Brasil pela Estação Liberdade três anos depois de vencer o respeitado prêmio Booker Internacional, parte de uma premissa fantástica para pensar como operam alguns mecanismos mais sedutores da política global de hoje.
O gatilho da trama é o misterioso Gaustin, um homem com poderes sobrenaturais e sabedoria sem fronteiras, que decide incrementar casas de repouso para tratar pessoas com Alzheimer usando uma técnica incomum: a recriação de ambientes inteiros da juventude, com sons, cheiros e texturas de décadas antigas, para exercitar a memória e combater sintomas de demência.
Mas as salas de “retroterapia” são tão realistas que se tornam um enorme sucesso, atraindo gente sem qualquer problema cognitivo. A clínica vai se ampliando para tomar todo um quarteirão, depois cidades, até mesmo países inteiros. E o livro, bem-humorado desde o começo, acelera rumo à sátira política.
Gospodinov, tido como um dos maiores autores da Bulgária, mas com projeção restrita antes do Booker, diz que anotou a ideia para o romance há mais de 20 anos, mas se esqueceu dela por muito tempo. Foi revirando gavetas antigas, cerca de dez anos atrás, que viu naquela sinopse uma atualidade gritante.
“Vejo tantas pessoas com ansiedade com o presente e as imaginei querendo realmente morar no passado”, diz. “Então aconteceu a eleição de Trump, e vi muitos políticos populistas jogarem com essa carta, fazendo do passado uma espécie de propaganda.”
Gospodinov, hoje um homem grisalho de 58 anos, conversa com a Folha destilando humor sardônico em uma ligação de vídeo que faz jogado no sofá, com sua esposa ajudando em traduções pontuais de palavras que lhe escapam em inglês.
Diz que políticos nacionalistas são “vampiros que se alimentam do sangue do passado”. Depois fala que são como “distribuidores de nostalgia”, mas se interrompe e procura a palavra certa. “Traficantes, traficantes!”, lembra, afinal. “Porque você pode se viciar no passado.”
Esse vício se alastra, “talvez por causa das novas mídias”, em um processo que Gospodinov chama de “Alzheimer coletivo”. Quando gerações que não têm lembrança fresca de conflitos antigos não conseguem ver nada de bom no horizonte, é mais fácil se fissurar em uma ideia idílica do pretérito.
É um fenômeno contagioso na Europa, diz o búlgaro, listando o ex-líder húngaro Viktor Orbán e o premiê eslovaco Robert Fico como exemplos desses “contrabandistas de passado”. O repórter pergunta se Vladimir Putin é outro. “Desculpe, me esqueci dele porque está no nono círculo do inferno, e eu ainda estou no primeiro.”
“É um mal tão simples e puro. Nem é interessante mais. A guerra de Putin contra a Ucrânia é por mais passado. O que ele quer ganhar é a União Soviética dos anos 1930, 1940, 1950. É mais importante para ele do que território.”
A Bulgária natal de Gospodinov teve um regime satélite do comunismo soviético até 1989, quando boa parte dos governos do Leste Europeu sucumbiram próximos à queda do Muro de Berlim.
A transição para o presidencialismo, em 1990, foi tida como uma das mais pacíficas da região, mas nunca resultou em desenvolvimento econômico pujante, deixando o imaginário do país à sombra da era soviética até hoje.
Segundo o autor, a memória coletiva funciona de maneira distinta em nações que viveram sob totalitarismo. “Eles nos infundiram com tanta propaganda. A ideologia é como o urânio das plantas atômicas, precisa de uns mil anos para desativar completamente.”
Gospodinov lembra que tentou realizar um projeto de memória oral em 2005, 16 anos depois do fim do regime comunista, coletando histórias que ilustrassem como foi a juventude de gente comum da Bulgária daquela época.
“E não foi fácil. As pessoas não estavam preparadas para dividir seus relatos, remexer histórias do passado, porque isso era perigoso no período totalitário. Se você tivesse avós que eram anticomunistas, isso podia pôr sua família em perigo. Então a vida cotidiana era cheia de segredos.”
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Lembranças podem ser fonte de saudade ou de trauma, podem ser construídas pela imaginação ou se confundir no labirinto da memória, e a abordagem de “Refúgio do Tempo” faz jus a todos esses meandros em sua forma.
Mesmo que a clínica de Gaustin esteja no centro, o romance se arquiteta como um fluxo de pensamento que confunde linhas temporais e narrativas, puxando o tapete de leitores que esperam um enredo mais convencional. Quem conhece a obra de Jorge Luis Borges, de quem o autor é fã, vai entender melhor a proposta.
“E esse é o livro mais bem organizado que tenho”, brinca Gospodinov, que estreia no Brasil com esta tradução direta do búlgaro feita por Milena Mincheva, diz se considerar um “poeta que escreve romances”.
“Não acho que um livro tenha que ser como um trem, viajando do ponto A ao ponto B”, diz ele. “Quando uma pessoa conta uma história, ela para, volta atrás, começa a falar de outra coisa e depois continua. Quero que meus livros sejam como uma conversa.”
lembre os últimos vencedores do prêmio Booker Internacional
2023
‘Refúgio do Tempo’, do búlgaro Gueorgui Gospodinov
2024
‘Kairós’, da alemã Jenny Erpenbeck
2025
‘Heart Lamp: Selected Stories’, da indiana Banu Mushtaq
2026
‘Taiwan Travelogue’, da taiwanesa Yang Shuang-zi













