Opinião – Wilson Gomes: Pare de usar Popper para justificar sua intolerância

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Opinião – Wilson Gomes: Pare de usar Popper para justificar sua intolerância


Pobre Popper! Escreveu um enorme tratado de filosofia política contra os inimigos da sociedade aberta —os defensores do autoritarismo, dogmatismo, intolerância, rigidez cognitiva, supressão da liberdade crítica e da autonomia individual— para depois ver-se transformado no padroeiro desses adversários. Principalmente dos autoritários de esquerda, que correm para debaixo do manto do “paradoxo da intolerância” sempre que repreendidos por suas propostas ou ações intolerantes.

É pouco provável que tenham lido Popper. Ainda assim, persiste o mistério sobre como a obra de um dos filósofos mais liberais do século 20 virou valhacouto de iliberais por conta de uma nota de rodapé em um capítulo em que ataca a tentação de entregar poder irrestrito aos que se julgam certos.

O tal paradoxo aparece numa nota ao capítulo 7 de “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. Popper enfrenta aqui a suposição platônica de que o poder político é, em essência, soberano, isto é, pouco ou nada controlado, de modo que o grande problema passa a ser descobrir em que mãos o colocar.

É daí que vem a velha pergunta platônica: “Quem deve governar?”. Os melhores? Os sábios? O povo? A maioria? Para Popper, a pergunta já contém um erro: pressupõe que o problema político consiste em descobrir quem merece receber o poder. Ele prefere outra, mais consequente: como organizar instituições para impedir que governantes ruins ou incompetentes causem danos?

É nesse contexto que aparece uma lista de paradoxos: tolerância, liberdade, democracia. Eles não são simples contradições. A liberdade é preferível à dominação; a democracia, à tirania; a sabedoria, à estupidez; a tolerância, à intolerância. Nada disso é contraditório. O paradoxo surge quando se transforma um princípio legítimo em algo absoluto.

Liberdade sem qualquer limite pode permitir que o forte escravize o fraco. Regra da maioria convertida em soberania absoluta pode permitir que a maioria escolha um tirano e suprima a própria democracia. Até o governo dos sábios pode colapsar se o sábio decidir que um estúpido deve governar. Daí a conclusão: todas as teorias da soberania são paradoxais. Absolutizado, o princípio autoriza a própria negação.

Popper não deve ser higienizado: ele admite, sim, a possibilidade de repressão jurídica. Diz que uma sociedade tolerante deve conservar o direito de suprimir movimentos intolerantes e tratar certas formas de incitação à perseguição como crime. Mas também escreve, na frase quase sempre omitida, que, enquanto filosofias intolerantes puderem ser enfrentadas por argumentos racionais e mantidas sob controle pela opinião pública, suprimi-las seria “extremamente imprudente”.

A hipótese que oferece para a passagem à coerção, porém, é a de que adversários abandonem o terreno do argumento, proíbam seus seguidores de ouvir razões e ensinem a responder aos argumentos “com os punhos”.

O típico militante, contudo, extrai da nota apenas o slogan “não tolerar os intolerantes” e transforma uma regra defensiva e excepcional numa autorização geral para a intolerância.

Ora, se a tolerância ilimitada pode destruir a tolerância, a intolerância ilimitada em defesa da tolerância também pode fazê-lo. Basta que cada grupo adquira o direito de identificar seus adversários como “intolerantes” ou “fascistas” e, com isso, conceda a si mesmo licença para os silenciar, expulsar ou agredir.

O grupo A declara B intolerante e, portanto, se sente autorizado a suprimi-lo. B, por sua vez, passa a considerar A intolerante justamente porque A o quer reprimir. Um terceiro grupo pode declarar intolerantes os dois. A defesa da tolerância degenera numa guerra de autoautorizações morais.

A ironia maior é que esse uso do paradoxo recoloca no centro exatamente a pergunta que Popper queria retirar dali. Quem recebe o poder de definir o intolerante e de decidir o que pode ser feito contra ele? Os antifascistas? Os progressistas? Os conservadores? “Nós, os bons” é apenas uma nova versão da velha teoria da soberania.

Não basta acreditar que se está do lado certo. O capítulo diz o contrário: a política não deve depender da esperança de que o poder esteja em boas mãos. Uma leitura popperiana exigiria outra coisa: instituições, critérios, procedimentos, controle público, possibilidade de contestação e limites ao poder de quem pune.

E o paradoxo de Popper? Basicamente diz o inverso do uso feito pelos autoritários: a sociedade deve se defender, sim, mas é de quem troca o debate racional pela perseguição, pelos punhos, pelo espancamento.


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