Pobre Popper! Escreveu um enorme tratado de filosofia política contra os inimigos da sociedade aberta —os defensores do autoritarismo, dogmatismo, intolerância, rigidez cognitiva, supressão da liberdade crítica e da autonomia individual— para depois ver-se transformado no padroeiro desses adversários. Principalmente dos autoritários de esquerda, que correm para debaixo do manto do “paradoxo da intolerância” sempre que repreendidos por suas propostas ou ações intolerantes.
É pouco provável que tenham lido Popper. Ainda assim, persiste o mistério sobre como a obra de um dos filósofos mais liberais do século 20 virou valhacouto de iliberais por conta de uma nota de rodapé em um capítulo em que ataca a tentação de entregar poder irrestrito aos que se julgam certos.
O tal paradoxo aparece numa nota ao capítulo 7 de “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. Popper enfrenta aqui a suposição platônica de que o poder político é, em essência, soberano, isto é, pouco ou nada controlado, de modo que o grande problema passa a ser descobrir em que mãos o colocar.
É daí que vem a velha pergunta platônica: “Quem deve governar?”. Os melhores? Os sábios? O povo? A maioria? Para Popper, a pergunta já contém um erro: pressupõe que o problema político consiste em descobrir quem merece receber o poder. Ele prefere outra, mais consequente: como organizar instituições para impedir que governantes ruins ou incompetentes causem danos?
É nesse contexto que aparece uma lista de paradoxos: tolerância, liberdade, democracia. Eles não são simples contradições. A liberdade é preferível à dominação; a democracia, à tirania; a sabedoria, à estupidez; a tolerância, à intolerância. Nada disso é contraditório. O paradoxo surge quando se transforma um princípio legítimo em algo absoluto.
Liberdade sem qualquer limite pode permitir que o forte escravize o fraco. Regra da maioria convertida em soberania absoluta pode permitir que a maioria escolha um tirano e suprima a própria democracia. Até o governo dos sábios pode colapsar se o sábio decidir que um estúpido deve governar. Daí a conclusão: todas as teorias da soberania são paradoxais. Absolutizado, o princípio autoriza a própria negação.
Popper não deve ser higienizado: ele admite, sim, a possibilidade de repressão jurídica. Diz que uma sociedade tolerante deve conservar o direito de suprimir movimentos intolerantes e tratar certas formas de incitação à perseguição como crime. Mas também escreve, na frase quase sempre omitida, que, enquanto filosofias intolerantes puderem ser enfrentadas por argumentos racionais e mantidas sob controle pela opinião pública, suprimi-las seria “extremamente imprudente”.
A hipótese que oferece para a passagem à coerção, porém, é a de que adversários abandonem o terreno do argumento, proíbam seus seguidores de ouvir razões e ensinem a responder aos argumentos “com os punhos”.
O típico militante, contudo, extrai da nota apenas o slogan “não tolerar os intolerantes” e transforma uma regra defensiva e excepcional numa autorização geral para a intolerância.
Ora, se a tolerância ilimitada pode destruir a tolerância, a intolerância ilimitada em defesa da tolerância também pode fazê-lo. Basta que cada grupo adquira o direito de identificar seus adversários como “intolerantes” ou “fascistas” e, com isso, conceda a si mesmo licença para os silenciar, expulsar ou agredir.
O grupo A declara B intolerante e, portanto, se sente autorizado a suprimi-lo. B, por sua vez, passa a considerar A intolerante justamente porque A o quer reprimir. Um terceiro grupo pode declarar intolerantes os dois. A defesa da tolerância degenera numa guerra de autoautorizações morais.
A ironia maior é que esse uso do paradoxo recoloca no centro exatamente a pergunta que Popper queria retirar dali. Quem recebe o poder de definir o intolerante e de decidir o que pode ser feito contra ele? Os antifascistas? Os progressistas? Os conservadores? “Nós, os bons” é apenas uma nova versão da velha teoria da soberania.
Não basta acreditar que se está do lado certo. O capítulo diz o contrário: a política não deve depender da esperança de que o poder esteja em boas mãos. Uma leitura popperiana exigiria outra coisa: instituições, critérios, procedimentos, controle público, possibilidade de contestação e limites ao poder de quem pune.
E o paradoxo de Popper? Basicamente diz o inverso do uso feito pelos autoritários: a sociedade deve se defender, sim, mas é de quem troca o debate racional pela perseguição, pelos punhos, pelo espancamento.
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