Opinião – Gustavo Alonso: Na MPB, Chico Buarque não está sozinho em sua aversão à autobiografia

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Opinião – Gustavo Alonso: Na MPB, Chico Buarque não está sozinho em sua aversão à autobiografia


Chico Buarque, o gênio da raça da música brasileira, comemora 82 anos nesta sexta-feira. Além da obra magnânima no campo da música, Chico se destaca no campo literário. Ele já escreveu romances, peças de teatro, novelas, contos, poesia e literatura infantil. Mas quando escreverá uma autobiografia?

Alguns podem dizer que Chico já escreveu sobre si e os seus familiares em obras como “O Irmão Alemão”, no qual romanceia a vida de um filho de seu pai fora do casamento. Há meias-verdades e muita imaginação na história lindamente contada no livro.

Um de seus últimos livros, “Bambino a Roma“, conta sua infância em solo italiano, acompanhando toda a família em período de estudos de Sérgio Buarque de Holanda na Europa. Mas também aí Chico se escora na literatura para não se haver com suas questões. Apoiado em memórias infantis, ele se esquiva de contar períodos mais importantes de sua vida.

A autobiografia é um gênero consolidado no mercado literário nacional. Mas, na música brasileira, pouquíssimos gênios da música brasileira se aventuraram a mergulhar dentro de si e se expor com sinceridade, construindo um texto com valor literário no mesmo nível de suas canções.

Caetano Veloso escreveu “Verdade Tropical” em 1997, um impressionante relato autobiográfico lindamente escrito. Nesta obra acompanhamos o baiano desde seu nascimento até 1972, quando voltou do exílio, decretando o fim do tropicalismo. Caetano nos deve a continuação de suas memórias.

Gilberto Gil publicou em 2013 o fraco “Gilberto Bem Perto”, em parceria com a jornalista Regina Zappa. Impressiona como, em 400 páginas de uma obra que tinha tudo para se tornar um guia autobiográfico do baiano, Gil e Zappa conseguem fazer um relato sem nada de inovador, apenas pisando em territórios confortáveis e muitas fotos sem relevância maior. Um desperdício.

Djavan, que acaba de completar 50 anos de carreira, é outro gênio da música brasileira que parece não estar muito a fim de contar sua versão para a posteridade. Por sua vez, João Bosco completa 80 anos de idade em 13 de julho, e tampouco escreveu suas memórias. Roberto Carlos, que há anos promete uma autobiografia, não parece de fato comprometido com a ideia.

Por que será que nossos gênios da música têm tanto medo de uma autobiografia sincera? Homens sensíveis, gênios da palavra, teriam todo o potencial para confrontar-se com o passado, brindando-nos com relatos interessantes para o entendimento da música e da história do Brasil durante suas longas trajetórias.

De todos os gênios citados, Chico é o que mais tem intimidade com a palavra escrita em formato de livro. No entanto, parece haver no compositor uma vontade de ser reconhecido apenas como romancista. Fica parecendo que a autobiografia é um gênero menor, que bom mesmo é escrever um romance original, desconstruído, inovador.

Chico já foi homenageado com todos os prêmios possíveis por seus livros. Ele já ganhou três prêmios Jabuti e o Prêmio Camões, principal troféu literário da língua portuguesa, pelo conjunto da obra. Falta um assento na Academia Brasileira de Letras, mas isso ele nem quer.

O motivo é familiar. Nos anos 1940, seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, assinou um manifesto comprometendo-se a nunca integrar a ABL em protesto contra a eleição de Getúlio Vargas. Chico considera esse compromisso uma herança familiar e já declarou que não tem interesse em ocupar uma cadeira na instituição.

Nossos ídolos fogem da autobiografia, e não por cansaço da idade. Todos estão ainda bastante ativos. Caetano, Gil, Djavan, João Bosco e Roberto Carlos seguem fazendo turnês celebrativas da carreira, infatigáveis senhores de idade. Menos afeito à roda-viva dos shows, Chico continua ativo na literatura. Seria pedir demais um tempinho para escrever suas memórias?

Chico Buarque não está sozinho em seu desprezo pela autobiografia. Até nisso, ele é representativo de seus pares. Uma geração de gênios que parece fugir de si mesma. Uma pena. O Brasil da posteridade merecia ler suas memórias.


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