Foi ao ar nesta terça-feira (4) o episódio final da primeira temporada de “Who Billionaire? Me Billionaire” (algo como “que bilionário? eu bilionário”). É até esquisto falar em episódio final. A série estreou uma semana antes. Cada um de seus dez episódios tem cerca de um minuto, não muito mais.
Mas “Me Billionaire” é um experimento, a primeira microssérie (ou microdrama) produzida pela equipe do talk show de Jimmy Fallon, e traz o apresentador/humorista no elenco ao lado de John Stamos, Kasey Esser, Delaney Rowe e Rose Kelso.
Trata-se de uma sátira escrachada das noveletas que fazem sucesso no TikTok e em outras plataformas, cujos roteiros, quando bem feitos, parecem a versão ultraconcentrada dos novelões do passado. Na produção em questão, dois casais de ultrarricos recebem, em uma mansão, um pobretão misterioso (Stamos) com contas a acertar com um deles.
Tudo é exagerado —figurinos, texto, expressões faciais— em busca do riso instintivo, que vem. E, se não fossem os ganchos múltiplos entre episódios, a produção passaria como um esquete em qualquer humorístico. Por que, então, reinventar a roda?
O primeiro motivo é filmar na vertical, posição preferida pelos mais jovens para assistir a vídeos (há dez anos, isso seria considerado crime por qualquer pessoa com experiência em cinema ou vídeo).
Desde a ascensão do TikTok, outras redes sociais se converteram ao formato, perseguido agora pelos mais diferentes veículos, inclusive os noticiosos. A televisão ainda não é peça de museu, mas não é inimaginável que a próxima geração a veja com a mesma estranheza que crianças e jovens veem hoje o telefone discado.
O segundo motivo é a duração. A rapidez que engoliu primeiro o mercado musical hoje avança por todo o audiovisual. Mesmo os programas tradicionais de TV têm sobrevida às vezes até mais ativa picotados nas redes sociais (o programa de Tatá Werneck e Edu Sterblitch é o melhor exemplo).
O terceiro é especulação da coluna e casa mais com a natureza dos microdramas, cheios de ricaços e acontecimentos rocambolescos distantes do dia a dia: escapismo.
Não que cinema, TV e livros não sejam desde sempre uma rota tradicional para a cabeça descansar e esquecer problemas. Entretanto, com o avanço do noticiário em tempo real e o bombardeio constante de notícias, geralmente negativas, há uma ampla fadiga do público com… o mundo real.
Pesquisadores mapearam o efeito desse cansaço na audiência de publicações noticiosas; seria de se supor que o fenômeno contaminasse, em algum grau, a ficção mais realista. A forma como a série “O Urso” acionou gatilhos em muitos espectadores cujos trabalhos são pura pressão, por exemplo, é um indício.
Fallon não está sozinho na sua empreitada. Nos EUA, o Daily Show com Jon Stewart também tem planos para lançar seu microdrama cômico, também sobre bilionários; no Brasil, o formato atrai da gigantesca Globo à independente Tele Tele, plataforma criada por um grupo de roteiristas e diretores.
É cedo para dizer se é uma moda; é precoce apostar que ela vá se sobrepor aos formatos tradicionais. Um movimento maior nesse sentido, porém, abre perguntas desconfortáveis sobre o que será a capacidade de atenção e assimilação das próximas gerações.
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