A arquitetura invisível do bem-estar: o ambiente também cuida da gente

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A arquitetura invisível do bem-estar: o ambiente também cuida da gente


Evento do JC mostrou que promover saúde também significa construir ambientes capazes de favorecer escolhas, pertencimento e qualidade de vida

Por

Cinthya Leite


Publicado em 06/08/2026 às 22:56
| Atualizado em 06/08/2026 às 23:20


Clique aqui e escute a matéria

Antes de começar a mediação do JC Saúde e Bem-Estar 2026, na última quarta-feira (5), pedi ao público que olhasse ao redor. A luz. A temperatura. O som. A disposição das cadeiras. As pessoas que estavam ali. A maneira como aquele espaço nos recebia.

Pedi alguns segundos de atenção para algo que normalmente passa despercebido. E, então, fiz uma provocação: e se o ambiente também cuidasse da gente?

Foi assim que escolhi abrir o evento, realizado em 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde. E, depois de ouvir os três convidados que estiveram conosco, saímos de lá ainda mais convencidos de que essa pergunta não poderia ser mais atual. Afinal, escolhas individuais, sono, alimentação, atividade física e administração do estresse importam muito. Mas é hora de ampliarmos a conversa, porque ninguém vive isolado da própria realidade.

Precisamos ampliar a ideia de que a saúde é algo que está apenas dentro do nosso corpo. Existe uma parte importante que acontece fora dele: é o ambiente. Ele nos influencia o tempo inteiro. A casa onde moramos, a cidade que atravessamos, o lugar onde trabalhamos, as pessoas com quem convivemos, os estímulos que recebemos e a maneira como conseguimos (ou não) fazer pausas.

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Tudo isso é ambiência. E tudo isso também participa do nosso bem-estar. Talvez, por isso, a pergunta que precisamos fazer hoje não seja apenas: o que eu posso fazer para cuidar melhor da minha saúde? Precisamos dar um passo a mais e questionar: que ambientes eu estou criando para que eu consiga viver melhor?

É muito fácil dizer para alguém dormir melhor, se movimentar mais, controlar o estresse, alimentar-se bem… Mas e se vivermos em um ambiente que não permite nenhuma dessas coisas? Foi esse contexto que nos levou a pensar no tema do evento deste ano: “Bem-estar como prioridade: o futuro da saúde começa pelo estilo de vida”. Ao longo do debate, olhamos para essa questão por diferentes ângulos: a importância do estilo de vida para a prevenção e a longevidade; a valorização da singularidade, neurodiversidade e saúde mental; e bem-estar no trabalho.

Na primeira palestra, o médico clínico Gustavo Miranda, presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica, trouxe uma reflexão que considero fundamental: informação, sozinha, não produz mudança. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdos sobre saúde e bem-estar e, ainda assim, transformar conhecimento em hábitos sustentáveis continua sendo um desafio.

O papel do profissional de saúde, portanto, não deveria ser apenas dizer ao paciente o que ele precisa fazer. É preciso escutar, entender barreiras, estabelecer metas possíveis e ajudar a construir uma mudança que caiba na vida real. Gustavo resumiu essa transformação ao propor que profissionais deixem de ser cobradores de resultados para se tornarem aliados na transformação e arquitetos da motivação.

Depois, a psicóloga e neuropsicóloga Geórgia Menezes ampliou a discussão por outro caminho: o da singularidade. A fala dela trouxe para o centro do debate o conceito de neurodiversidade e uma mudança importante na própria compreensão de saúde. Se hoje sabemos que promover saúde significa também favorecer autonomia, participação social, qualidade de vida e bem-estar, precisamos reconhecer que esses caminhos não são iguais para todas as pessoas.

Condições neurológicas, como autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), dislexia e altas habilidades, não devem ser compreendidas como déficits a serem corrigidos. A perspectiva neuroafirmativa propõe justamente o contrário: escuta qualificada, cuidado individualizado e ambientes capazes de reduzir barreiras, favorecer pertencimento e permitir que cada pessoa desenvolva o próprio potencial.

Foi quando percebi que as duas primeiras conversas já estavam falando, de maneiras diferentes, sobre ambiente. Gustavo nos mostrou que uma mudança de hábito precisa caber na rotina. Geórgia nos lembrou que o cuidado precisa caber na singularidade.

E, então, veio a terceira dimensão: o trabalho. O executivo Leandro Ortigoza, diretor de Pessoas & Cultura do Real Hospital Português, trouxe para a discussão um tema que ganhou ainda mais urgência nos últimos anos: o impacto da cultura organizacional sobre a experiência de quem trabalha.

Durante muito tempo, falar de bem-estar nas empresas significava falar de benefícios. Hoje, a discussão é outra. Organizações precisam conciliar desempenho, inovação e cuidado com as pessoas. Dessa maneira, resultados sustentáveis dependem da construção de ambientes em que elas possam se desenvolver e encontrar significado no que fazem.

Com esse raciocínio, Leandro fez uma observação especialmente importante: felicidade no trabalho não significa ausência de dificuldades, e sim encontrar respeito, oportunidades de desenvolvimento e a percepção de que aquilo que fazemos tem significado.

Talvez essa seja uma das grandes conclusões que levamos desta edição do nosso evento: bem-estar não é apenas uma escolha individual; é também uma construção coletiva.

É muito fácil dizer a alguém que precisa dormir melhor quando sua rotina não permite descanso; recomendar atividade física sem considerar o tempo disponível, o território onde essa pessoa vive ou suas condições financeiras. É simples falar em saúde mental sem olhar para os ambientes que produzem exaustão, ou defender inclusão sem adaptar os espaços para que diferentes pessoas possam, de fato, pertencer.

Por isso, quando pensei no conceito de ambiência para abrir o evento, talvez eu ainda não tivesse dimensão de quanto essa palavra atravessaria toda a programação. Sim, o ambiente pode estimular, acolher, facilitar escolhas e gerar pertencimento.

A casa, a escola, o consultório, o hospital, a empresa, a cidade, as relações. Tudo isso participa, de alguma forma, da experiência de saúde. E certamente o futuro do bem-estar esteja justamente em parar de perguntar apenas “o que cada um pode fazer pela própria saúde”.

Devemos começar a perguntar também: “Que ambientes estamos construindo para que as pessoas consigam viver de forma mais saudável?” Essa pergunta é muito simbólica e tem o poder de gerar mudança de comportamento, pois coloca responsabilidade não apenas no indivíduo, mas também nos profissionais de saúde, nas empresas, nos gestores, nas famílias, nas cidades e em todos nós.

No fim, o que o JC Saúde e Bem-Estar 2026 nos deixou foi menos uma resposta e mais uma certeza: não basta ensinar as pessoas a viver melhor. Precisamos também construir condições para que elas possam fazê-lo. E nesse ponto, o bem-estar pode deixar de ser apenas um desejo e passar, de fato, a ser uma prioridade.






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