Juízes e outros membros do Judiciário que se arriscam na ficção, na poesia –ou no beletrismo– não são nada incomuns, mas uma tradição ainda está para ser consolidada entre aqueles que enfrentam a dramaturgia.
O desembargador aposentado Régis de Oliveira escreveu para o teatro a peça “O Deus de Spinoza”, que teve temporada em São Paulo em 2023. Agora é a vez do desembargador federal do TRF3, de São Paulo, Paulo Gustavo Guedes Fontes, de 55 anos, levar para o palco a saga e as dúvidas de outro pensador, o inglês Henry Sidgwick. “Os Métodos da Ética”, a principal obra do filósofo moral filiado ao utilitarismo de John Stuart Mill, busca atualizar o grande problema –e a grande herança– de Sócrates, que é encontrar a melhor maneira de viver.
“O Dilema de Sidgwick”, primeira peça de Fontes, fica em cartaz nos próximos quatro finais de semana no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com ingressos gratuitos e direção de Bruno Perillo, que atuou em “O Deus de Spinoza”.
Fontes julga casos da esfera penal e é doutor em direito do Estado –o neoconstitucionalismo, que tem como uma de suas decorrências o criticado ativismo judicial, foi seu tema de estudo. Ele mantém um perfil no Instagram, @pilulasdefilosofiadodireito, em que apresenta temas e autores da filosofia, seja geral ou jurídica.
O autor disse, EM entrevista à reportagem, num café da Vila Madalena, em São Paulo, que se atraiu pelos temas e traços biográficos comuns entre ele e seu objeto. Entre eles, a existência –ou não– de Deus, questão que Fontes sempre discutiu com seu irmão, e que, no caso de Sidgwick, foi profundamente impactada pela Teoria da Evolução de seu contemporâneo Charles Darwin, além do interesse de ambos, Fontes e Sidgwick, pela mediunidade.
Além disso, Sidgwick foi um defensor de primeira hora do protagonismo feminino, viveu conflitos ligados a uma possível homossexualidade, e seu pensamento dialogava com o Olimpo da filosofia da época. Mesmo o utilitarismo que professou, que impele à busca de uma felicidade geral, “à maior felicidade para o maior número [de pessoas]”, como escreveu, afastava-se daquele de seus mestres, por “não poder ser adequadamente provado”, como relata Fontes no apêndice de seu livro.
Mas se é possível hierarquizar ou dar uma dimensão ontológica aos dilemas de Sidgwick, aquele que mais o mobilizou foi mesmo o da existência de Deus, razão de sua renúncia ao posto de fellow do Trinity College da Universidade de Cambridge, em 1869, por já não julgar ter condições de professar a fé anglicana que jurou em sua admissão.
Além disso, Sidgwick teve atuação intensa na Society for Psychical Research, sociedade dedicada aos estudos da paranormalidade e da qual faziam parte ainda Cesare Lombroso –o mesmo que via determinismo biológico no criminoso–, Camille Flammarion e William James.














