A morte do escritor de novelas Benedito Ruy Barbosa, na última terça, despertou na imprensa homenagens sobre diferentes aspectos de sua obra. Todos os memoriais lembraram que, desde “Meu Pedacinho de Chão”, de 1971, soube incorporar as temáticas rurais no horário nobre da TV brasileira. Mas praticamente ninguém se recordou de que o dramaturgo também foi fundamental para a consolidação da música sertaneja no “mainstream” nacional.
Nascido em Gália, interior de São Paulo, ele passou a infância no município vizinho de Vera Cruz. Já adulto, viveu boa parte da vida em um sítio em Sorocaba, refúgio onde escrevia suas famosas novelas rurais. O autor, que se definia como “um caipira antes de mais nada”, foi também aquele que ajudou a tornar a música sertaneja audível nas novelas nacionais.
Teve contato com os sertanejos desde cedo. Em 1977, o cantor Sérgio Reis foi chamado pelo diretor Jeremias Moreira Filho para estrelar o filme “Mágoa de Boiadeiro”, inspirado na música homônima. O roteiro era de Benedito Ruy Barbosa.
Nos anos 1970, com a chegada em definitivo da TV em muitas zonas rurais do país, o homem do campo tornou-se um potencial telespectador. Percebendo o filão que se abria, a Globo investiu pesado nas atrações rurais. Benedito era o escritor que versava sobre o “Brasil profundo” em novelas como “O Feijão e o Sonho”, de 1976, “À Sombra dos Laranjais”, de 1977, “Cabocla”, de 1979, além de “Meu Pedacinho de Chão”.
Em “Paraíso”, de 1982, a simbiose com a música rural foi além. Pela primeira vez, uma novela de Benedito Ruy Barbosa trazia um violeiro de verdade como personagem, papel que coube novamente a Sérgio Reis. Além de “Boiadeiro Errante”, do artista, houve espaço na trilha sonora para Almir Sater, com “Varandas”, Rolando Boldrin, com “Eu, a Viola e Deus”, e Milionário e José Rico, com “Minha Paixão”.
Nos anos 1990, Benedito Ruy Barbosa escreveu novelas marcantes. “Pantanal”, na TV Manchete, e “Renascer”, na Globo, consolidaram a verve de retratista da vida no campo. Dando um passo além, “O Rei do Gado” trazia uma novidade que as antecessoras evitaram: a entrada de cabeça no mundo sertanejo de alto consumo popular.
O folhetim foi veiculado de 17 de junho de 1996 a 15 de fevereiro de 1997, num total de 209 capítulos, e tornou-se um dos vetores responsáveis pela incorporação da música sertaneja às novelas da Rede Globo. Quase todos os grandes nomes sertanejos estavam presentes na trilha sonora, de Chitãozinho e Xororó a Roberta Miranda, de Zezé Di Camargo e Luciano a Leandro e Leonardo, de João Paulo e Daniel a Chrystian e Ralf.
Os grandes sucessos sertanejos entraram com força no horário nobre global, misturados a nomes da MPB como Djavan, Zé Ramalho, Dominguinhos, Orlando Moraes e cantores “caipiras” como Almir Sater e Sérgio Reis, que faziam ponta na novela como a dupla fictícia Pirilampo e Saracura. Os discos de “O Rei do Gado” tornaram-se a trilha sonora mais vendida da Globo, atingindo cerca de 3 milhões de cópias de seus dois volumes.
Após o sucesso da trilha sonora de “O Rei do Gado”, tornou-se comum sertanejos serem ouvidos no horário nobre do meio da semana, para além dos programas popularescos de domingo.
As novelas de Benedito Ruy Barbosa foram fundamentais para a construção mercadológica da música sertaneja e sua nacionalização Brasil afora. Mas o fato de os obituários se esquecerem de tal primazia diz muito sobre a dificuldade de aceitação da música sertaneja entre os núcleos globais da memória coletiva. Benedito Ruy Barbosa estava acima de tudo isso.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.












