Opinião – Gustavo Alonso: Sertanejo volta a liderar as paradas com Panda e valores do passado

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Opinião – Gustavo Alonso: Sertanejo volta a liderar as paradas com Panda e valores do passado


Nesta semana foi divulgada a lista das músicas mais ouvidas nas plataformas de streaming brasileiras no primeiro semestre do ano, segundo levantamento divulgado pela Pro-Música, entidade que representa as principais gravadoras do país.

Chamou a atenção a manutenção histórica do gosto brasileiro por músicas feitas por artistas nacionais. Das 50 mais ouvidas, 48 são de músicos brasileiros. As exceções são “Swim”, do BTS, que ocupa a 23ª colocação, e “The Fate of Ophelia”, de Taylor Swift, na 41ª posição.

Entre as nacionais, a música sertaneja voltou a dominar as paradas depois de um período em que o pagode hegemonizou a lista dos sucessos populares. E quem está em primeiro lugar é o cantor Panda.

Quem? Dependendo da sua bolha na cultura fragmentada em que vivemos, talvez você não saiba que o sertanejo Panda é hoje o artista de maior sucesso comercial do país. Sua trajetória ilustra bem as tensões entre tradição e modernidade da música sertaneja atual.

Panda tem cinco canções entre as 50 mais tocadas. A campeã “Eu Te Seguro (Ao Vivo)” tem espantosos 153 milhões de visualizações no YouTube. No Spotify são quase 250 milhões de acessos. A canção romântica remete a uma valsa tradicional de compasso ternário.

A letra não canta a separação, mas exalta o homem que cuida da mulher que acorda um tanto “insegura”. A gravação, relativamente simples e baseada em violões, nos faz refletir sobre a evolução da música sertaneja, com idas e vindas modernizadoras e puxadas de freio.

Até alguns meses atrás, quem hegemonizava a seara sertaneja eram os artistas do chamado “agronejo”, aquela linha que flertou intensamente com a divulgação do agronegócio, e alguns artistas entraram de cabeça na defesa do bolsonarismo. Mas não era possível dizer que fossem meros conservadores.

Para além da divulgação ideológica conservadora, as faixas misturavam de forma pioneira a música eletrônica —batidas urbanas, funk, pop latino eletrônicos— ao universo sertanejo. Apesar do grande sucesso comercial, nunca chegaram a um consenso no meio.

O principal escritório por trás da ascensão do “agronejo” foi o AgroPlay. Fundado em 2021, com sede em Londrina, no Paraná, foi o grande responsável por gerenciar e projetar fenômenos como Luan Pereira, Us Agroboy, Léo e Raphael, e DJ Chris no Beat e, especialmente, Ana Castela. Destes, apenas Ana Castela sobrevive nesta lista das 50 mais ouvidas.

Retomando valores consolidados do passado, a ascensão de Panda chama a atenção para outros aspectos negligenciados pelos modernizadores do “agronejo”. É sempre um pouco assim, num movimento de dois passos pra frente e um pra trás, que a música sertaneja avança, quando os valores modernizantes da geração anterior se tornam cânones.

A letra afirmativa de “Eu Te Seguro (Ao Vivo)” canta uma temática positiva da relação amorosa que foi inaugurada pelos sertanejos universitários em 2005. Não há sofrimento; pelo contrário, valoriza-se a sintonia como algo que melhora os amantes. Relembrando a modernização de gerações anteriores, a voz do cantor Panda lembra muitíssimo a de Bruno, da dupla Bruno e Marrone. Seu canto é grave e rasgado, com um drive na voz. Nada de voz aguda.

A instrumentação da canção de Panda seguiu louvando a tradição. Abandonou-se por completo a música eletrônica do “agronejo” e retornou-se à estética acústica ritmada por violão de cordas de aço, num arranjo bastante simples.

Nascido em São Paulo como Jonathan Scarello Anjos, Panda iniciou sua carreira em 2009. Depois de cantar alguns anos em dupla na capital paulista, passou a se apresentar solo em Mato Grosso com o próprio nome. Foi só em 2020 que deu início à nova carreira, quando entrou no escritório MJ Music e, por sugestão do empresário, adotou o nome artístico de Panda. Para um artista gordo que queria agradar às massas, parecia um bom nome artístico. Afinal, quem não gosta do urso panda?

A ascensão de Panda na seara sertaneja representa a construção de uma nova hegemonia na dança dos escritórios sertanejos. Desde 2005, quando as gravadoras perderam centralidade na cadeia produtiva musical diante da pirataria de CDs, quem conduz o gênero mercadologicamente são os escritórios, que produzem shows e turnês Brasil afora.

O sertanejo universitário, criado em 2005, foi capitaneado pelos primeiros escritórios dominantes, especialmente o AudioMix, do empresário Marcos Araújo, e a Talismã Music, criada pelo cantor Leonardo ao lado do sócio Willian Passarinho. No ano seguinte, foi fundada em Goiânia a WorkShow por Wander Oliveira, escritório que começou a ganhar importância a partir dos anos 2015 ao criar o feminejo. Sua maior estrela foi Marília Mendonça.

Durante a pandemia da Covid-19, apareceu a Agroplay e o “agronejo” eletrônico, que comentamos. Agora parece ser a vez da MJ Music, escritório criado pelos irmãos Rafael, Fernando e Michael Cabral. Junto com Panda, a MJ Music traz outros artistas, como Mariana Fagundes, Ícaro e Gilmar, Lukinha e também cantores de outras gerações, como Humberto e Ronaldo e João Neto e Frederico.

Mariana Fagundes é a cantora por trás de outro hit-chiclete que você já deve ter ouvido, a onipresente “Peão Todo Tatuado”, parceria com o cantor Jeninho. A canção é sobre uma mulher empoderada, que sabe o tipo de amante que quer, temática comum no feminejo. A canção ocupa a posição 32 da lista divulgada e deve subir ao longo do segundo semestre.

Peão tatuado, tradição e modernidade. Essa é a gangorra que balança a música sertaneja.



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