Por que os homens estão mostrando tanto o bumbum nos filmes e nas séries?

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Por que os homens estão mostrando tanto o bumbum nos filmes e nas séries?


Todo mundo tem, mas nem todos topam mostrar, especialmente os homens. Mas o bumbum masculino tem aparecido cada vez mais em grandes produções audiovisuais. De Jesuíta Barbosa no filme nacional “Homem com H” a Alexander Skarsgard no britânico “Pillion“, de Xamã na novela “Renascer” a Charles Melton na segunda temporada de “Treta“, atores daqui e de fora se sentem cada vez mais à vontade em mostrar sua porção traseira.

No streaming, a tendência se acentua ainda mais, com outros casos recentes envolvendo “Tremembé“, “The Boys“, “The White Lotus“, “Too Much“, “Hacks“, “Industry“, “Off Campus: Amores Improváveis“, “The Beauty: Lindos de Morrer” e “Rivalidade Ardente“, fenômeno canadense impulsionado, em parte, pelos corpos —e nádegas— sarados dos “it boys” do momento, Hudson Williams e Connor Storrie.

Em comum, todas as produções tiveram repercussões impulsionadas, em parte, pelos nus masculinos. Já no caso das novelas, o ritmo é mais tímido, embora cenas de nudez também estejam se infiltrando nas tramas aos poucos, como em “Todas as Flores“. Procurada, a Globo não quis falar sobre o tema.

“Vejo essa mudança como uma resposta a um audiovisual que tanto explorou o corpo feminino. Filmes com homens e mulheres mostravam muito mais o corpo feminino em cenas de sexo”, afirma o diretor Esmir Filho, de “Homem com H”. “Por que a gente não pode mostrar tanto um quanto o outro?”

Até porque os glúteos são comuns a todos. “Zé Celso [diretor e fundador do Teatro Oficina] falava que o cu é a coisa mais democrática do mundo”, diz o ator Kelner Macêdo, que gerou furor ao surgir vestindo uma calcinha fio dental na série “Tremembé”, em que interpretou Cristian Cravinhos.

“Foi uma loucura, representou bem o tipo de sociedade em que vivemos. É engraçado, porque essas filmagens não são uma questão. Tudo é técnico e coreografado, como uma cena de ação”, diz Macêdo. Para o ator, o propósito por trás dessa nudez pode tanto envolver um aprofundamento no personagem quanto o desejo de validar determinados corpos ou subverter símbolos e comportamentos sexuais vigentes.

Críticos da nudez frequentemente associam o foco nas nádegas, ou em outras partes descobertas do corpo humano, ao excesso. “Mas precisa disso?”, questionam. Esmir Filho responde que, em alguns casos, sim. A validade de cenas como essas está na construção de sentido para um personagem ou uma cena.

“No caso de ‘Homem Com H’, estávamos falando de um ícone [o cantor Ney Matogrosso] que, aos 85 anos, continua um símbolo sexual. A sexualidade foi importante para a formação não só de seu caráter, mas de Ney como artista. Então, como é que eu não vou pôr isso no filme?”, questiona o diretor.

Há ainda uma notável presença do nu masculino em tramas queer. É o caso de “Rivalidade Ardente”, sucesso global que, nas redes sociais, cativou homens e mulheres, gays e héteros, com sua história de amor ambientada no universo do hóquei e narrada de forma crua, sem timidez.

Outra produção do tipo que serve como exemplo é a polonesa “Proud”, da HBO, na qual o protagonista, um jovem gay festeiro, é incumbido da missão de cuidar da sobrinha.

Os motivos para o crescimento do que pode ser visto como uma fetichização do corpo masculino, após anos de normalização do corpo feminino nu em cena, são a presença crescente de diretores, roteiristas e produtores LGBTQIA+ ou mulheres por trás das câmeras.

“Acredito que, quando os autores queer assumem o ponto de vista, assim como as mulheres, há uma subversão. Criar outras perspectivas para o corpo masculino é algo presente, majoritariamente, nesses projetos”, afirma Macêdo.

“Há uma maior amplitude de mercado agora. Antes, o homem branco, cisgênero e hétero era sempre o centro da narrativa. Hoje, outras pessoas emergem nesse espaço, assim como na tomada de decisão”, ele continua. “Quantas vezes eu ouvi reclamações de amigos atores que faziam um filme sobre diversidade dirigido por um cara hétero, quadrado, sem conhecimento de nada e com preconceito de quase tudo?”

Essa mudança também acontece longe dos sets de filmagem. Segundo André Maranhão, cirurgião plástico e um dos diretores da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, há um aumento gradual da procura por procedimentos voltados ao contorno dos glúteos. Ele cita, entre os exemplos, a lipoenxertia glútea, um enxerto de gordura do próprio paciente, e os implantes.

O crescimento mais expressivo, porém, foi naqueles procedimentos minimamente invasivos, com o uso de bioestimuladores de colágeno e, em casos selecionados, preenchedores à base de ácido hialurônico”, afirma Maranhão.

O perfil que mais busca as intervenções cirúrgicas é o de homens entre 20 e 50 anos. Geralmente fisicamente ativo e preocupado com imagem corporal e bem-estar, diz o médico.

“Quanto à orientação sexual, esse não é um aspecto que costuma nortear. O interesse pela estética corporal masculina tem se tornado cada vez mais transversal, envolvendo diferentes perfis sociais, profissionais e estilos de vida.”

Há também maior preocupação com exercícios físicos, inclusive aqueles que trabalham a região das nádegas. Segundo dados do aplicativo de saúde Whoop, o registro de atividades relacionadas aos glúteos dobrou entre os homens que usam a ferramenta, nos Estados Unidos, nos últimos dois anos.

Assim, o bumbum “de verão” virou objeto de desejo também entre os homens. “Há anos existe um esforço coletivo em repensar os papéis masculinos. Isso inclui o que é belo ou não; e a bunda está no centro desse debate”, afirma Andreh Santos Francisco, antropólogo e diretor na Sociedade Brasileira de Estudos de Sexualidade. “Antes, era uma área muito mal vista e temida, especialmente pelos héteros.”

Forma-se aí uma bunda masculina ideal, como as que surgem em “Rivalidade Ardente” —musculosa, empinada e com baixa gordura. “Hoje, o padrão é o escultural, com valorização do tônus. É nítido ao olhar as produções audiovisuais”, continua o antropólogo. “Não há uma grande diversidade. Volta e meia aparece uma mais fininha, outra mais caidinha, mas não é a regra.”



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