No final de 2006, eu pensei em um personagem. Não foi como um raio que cai na cabeça, mas uma elaboração profunda a partir de experiências e leituras.
Imaginei um menino de 12 anos, paciente psiquiátrico, que acredita em tudo o que qualquer pessoa conta. Vive na rua e seu nome é Daniel.
Alguém contou pra ele que, se juntasse R$ 500, conseguiria comprar uma mãe. Ninguém sabe, mas há uma loja no centro de Fortaleza que vende familiares. Há inclusive um calendário fixo de promoções: perto do Dia das Mães, o cliente pode comprar um pai com desconto. Se for mais próximo do Natal, os avós saem com preço mais acessível.
O menino acreditou e passou a juntar o dinheiro. Engraxou sapatos, desenhou com carvão, cometeu pequenos furtos, enfiou as notas e moedas no oco de uma bengala de alumínio e chegou ao valor total. Entregou ao rapaz, mas nunca recebeu a mercadoria. Essa seria uma parte da história.
Estamos em 2026 e esse livro ainda não foi concluído. Já escrevi 11 versões e desprezei todas. Estou na 12ª. De vez em quando, almoço com meus editores para explicar por que não terminei ainda. São pacientes.
Minha vida tem sido preenchida pela profissão de faladora, não de escritora. Eu viajo para falar e as pessoas vão me ouvir, basicamente é isso. A cada evento os auditórios estão mais e mais lotados. Falo um bocado, respondo às perguntas, dou autógrafos e abraços, volto pro hotel, pra casa e torço por um tempinho de paz para escrever.
São 20 anos pensando no mesmo romance, na mesma história. Hoje ela já tem um corpo mais definido, Daniel só vai aparecer no terceiro capítulo.
Enquanto a vida passa, as experiências vão tornando a escrita mais sólida. Em 2006, por exemplo, eu ainda não sabia que o tema central era justamente a doença mental do menino. E das pessoas ao redor dele.
Eu também não tinha clareza, àquela altura, do que era o processo. Hoje compreendo muito melhor a minha profissão. Sou uma jornalista que pesquisa a realidade e cria a partir dela.
Talvez metade do meu material de trabalho seja o que descubro nas entrevistas, leituras de artigos, livros, nos encontros reais. A outra metade é a invenção, o que poderia ter sido, o que deveria ter acontecido, o que seria justo e, sobretudo, o que seria sonho.
Hoje eu também tenho em mente, quando escrevo, que este trabalho é feito para as pessoas que vão ler. Não é pra mim. Se fosse, bastaria o que já tenho na cabeça.
Quando fecho os olhos, vejo tudo. Vejo Daniel no seu mundo, vejo as notas de dinheiro enroladas na bengala, a luz sumindo dos olhos quando descobre o engano, vejo as ruas por onde ele anda. Bastaria isso.
Se eu passo horas e horas diante dos cadernos e do computador, é porque quero dar de presente às pessoas esse filme que trago aqui dentro. Conseguir fazer essa duríssima transposição, essa alquimia de transformar pensamentos em palavras, já é a maior vitória.
Concluir. Entregar o arquivo. Ouvir as opiniões dos editores com tranquilidade. Mudar tudo o que precisa ser melhorado, milhões de vezes. Até ver o livro nascer como um objeto nas mãos das pessoas.
Vou sempre dizer que foram 20 anos pensando, pesquisando e escrevendo. São cerca de 60 mil palavras que eu preciso juntar em 22 capítulos. Um método lento e desencorajador para quem busca a pressa. Eu não. Só quero calmaria. Não vejo a hora de terminar e armar uma rede.
Porque, se der tudo certo, em breve estarei autografando e contando como foi a travessia de entrevistas, demolições, fantasmas e delírios. Conversar com fantasmas por 20 anos é um ato de coragem.
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