Analistas preveem ano difícil que exigirá medidas impopulares, mas com um olhar para o futuro e lidar com o esgotamento do modelo econômico
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O ex-secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo e hoje economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, vem escrevendo a seus clientes que o ajuste fiscal deverá se impor no ano que vem. Mas o cenário econômico e político de 2027 será muito distinto do observado em 2023.
Ele se refere a 2023, quando o Presidente Lula vinha de um período em que ficou preso; o governo anterior havia ampliado despesas, em ano eleitoral, inclusive turbinando fortemente as transferências sociais. E para coroar o quadro, houve uma tentativa de golpe de Estado no início de janeiro.
Entender os movimentos
Portanto, o contexto político e os fatores acima elencados ajudam a entender os motivos pelos quais 2023 não foi um ano de ajuste, como ocorre tradicionalmente em razão dos movimentos próprios dos ciclos político-eleitorais.
Felipe Salto recomenda para 2027 fazer um ano de ajuste e colher bons resultados em termos de juros, contenção da dívida, aumento da renda e das possibilidades de realizar novas políticas públicas, em vez de cair no populismo.
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Felipe Salto, ex-secretário da Fazenda de São Paulo e economista-chefe da Warren Investimentos – Divulgação Warren
Nova dinâmica fiscal
É o que também observa o ex-vice-presidente do Banco Mundial e atualmente no Policy Center for the New South, Otaviano Canuto. Para ele, a nova gestão terá de lidar com a vulnerabilidade fiscal. O emprego e os últimos patamares de crescimento econômico têm sido melhores do que o esperado, mas isso vem ocorrendo em uma dinâmica fiscal que exigirá ajustes.
E lembra que o governo Lula 3 criou um arcabouço fiscal, mas este teve seu uso flexibilizado por diversas manobras. As metas iniciais foram modestas e, a rigor, não foram cumpridas.
Salto e Canuto não estão sozinhos. Seus colegas ouvidos a partir da mesma pergunta apontam a necessidade de ajuste.
Um mundo de mudanças
Tânia Bacelar, ex-secretária de Fazenda de Pernambuco e ex-superintendente da Sudene e fundadora da consultoria Ceplan, sugere uma nova postura: O novo presidente vai assumir em um momento no qual o mundo experimenta profundas transformações estruturais, o que exige um reposicionamento do Brasil. “Deveria, prioritariamente, olhar para o futuro, enquanto administra heranças relevantes.”
Olhar para o futuro, para ela, quer dizer essencialmente duas agendas estratégicas: a das heranças desafiadoras e a do futuro promissor. Ao Ministério da Fazenda cabe cuidar da trajetória da dívida pública, da viabilidade financeira da Previdência, do financiamento das políticas sociais. Ao Ministério do Planejamento – fortalecido – liderar a construção de um projeto de futuro.

Economista Ecio Costa professro da UFPE , consultor de empresas e comentarista semanal do JC. – DIEGO NIGRO/ACERVO JC IMAGEM
Não admitindo ilusões
Enquanto Bacelar fala do desafio do futuro, o professor e comentarista do JC, Ecio Costa, lembra que o cenário econômico que aguarda o Brasil após o encerramento do atual ciclo eleitoral não permite ilusões.
Historicamente, anos eleitorais no Brasil são marcados por fortes pressões expansionistas e aumento de gastos públicos. A consequência inevitável dessa dinâmica é a deterioração das expectativas inflacionárias e a elevação da curva de juros futuros, diz Ecio Costa para concluir:
O grande desafio para o próximo ano é lidar com o esgotamento do modelo pautado essencialmente no aumento de arrecadação, com um correspondente e efetivo aumento estrutural de despesas.
Contas públicas
Edgar Leonardo, economista e também participante da bancada do Passando a Limpo, da Rádio Jornal, vai na mesma direção quando adverte que em 2027, a nova equipe terá uma economia com pouco espaço para erros. “O desafio será conciliar a sustentabilidade das contas públicas, diante da trajetória da dívida e do avanço das despesas obrigatórias, com a manutenção das políticas sociais e a retomada dos investimentos”, avalia.
Ecio Costa vai na mesma direção: “A agenda do ano que vem exigirá medidas impopulares para a sustentabilidade do país. Um choque genuíno de credibilidade fiscal reduz de imediato o prêmio de risco exigido pelos investidores globais. Juros menores barateiam o crédito corporativo, destravam bilhões em investimentos privados que hoje estão represados na renda fixa e estimulam a engrenagem da geração de empregos reais, recomenda.

O ex-diretor executivo e vice-presidente do Banco Mundial, diretor executivo do FMI, Otaviano Canuto. – DIVULGAÇÃO
Déficit primário
Felipe Saldo lembra que estamos vendo uma contenção importante do déficit primário, apesar das boas medidas do lado da arrecadação, mas os juros, na casa de 8,5% do PIB, pesam fortemente. Tanto que a dívida pública já supera 81% do PIB e está crescendo.
Ele avalia que, com a inflação sob controle, com desemprego baixo e crescimento econômico razoavelmente elevado, é possível preservar essa dinâmica e expandir o bem-estar social, mas que o problema estrutural das contas públicas precisará ser endereçado com maior intensidade e profundidade.
Mais dívida pública
Mas para Ecio Costa o peso da dívida pública, com mais de 81% do PIB, o engessamento quase total do Orçamento da União, com mais de 95% em despesas fixas, e o déficit persistente de 8,5% do PIB ameaçam asfixiar a economia.
Edgar Leonardo, lembra que o novo relatório do Instituto Fiscal Independente (IFI), que Felipe Salto dirigiu, trouxe um alerta relevante ao dizer que a economia brasileira opera acima do seu potencial desde meados de 2024.
Sem capacidade
É que a pouca ociosidade, sem capacidade de expansão sustentada, continua limitando o crescimento. Lembrando que quando a formação de capital não acompanha as necessidades da economia, a capacidade produtiva se expande devagar.
Naturalmente, tendo que enfrentar o desequilíbrio fiscal e o da Previdência e criar condições para reduzir o custo de capital, estimular o investimento e elevar a produtividade.

Edgar Leonardo, economista e professor e coemntarista da Radio Nornal do progrma Passando a Limpo.. – Divulgação
Taxas de Longo prazo
Para Canuto, as taxas de juros elevadas não refletem apenas o manejo anti-inflacionário da taxa curta SELIC pelo BC. As taxas de longo prazo também refletem uma percepção de piora na trajetória fiscal e de dívida pública. Um programa crível de ajuste dessa trajetória será essencial para evitar algum círculo vicioso entre deterioração fiscal e macroeconômica.
Ecio Costa é mais incisivo. O mercado global não tem tolerância para contabilidades criativas em economias emergentes. Lembrando que a economia também é feita de janelas de oportunidade.
Divisor de águas
“O ano que vem será um divisor de águas. Teremos que escolher entre a inércia fiscal, que invariavelmente cobra seu preço em inflação e desemprego, ou a responsabilidade econômica, que transforma o remédio amargo de hoje no crescimento sustentável e inclusivo de amanhã. O que aconteceu com outras economias emergentes pode acontecer com o Brasil.
Otaviano Canuto concorda que o risco é agravado pelos sinais preocupantes no lado do crédito privado. Entre estes, as estatísticas atuais de pessoas em situação de inadimplência, além de notar uma dificuldade de rolagem de dívida enfrentada por empresas que recorreram a instrumentos de securitização.
Olhando para trás
Tânia Bacelar avalia que, nas últimas décadas, o Brasil tem priorizado olhar para trás. Ficamos reféns do passado; portanto, é hora de subverter tal postura, lembrando que fatores como autonomia tecnológica, segurança energética, resiliência logística e controle sobre recursos estratégicos tornaram-se ainda mais relevantes na definição das estratégias empresariais e das políticas públicas.
Encurtar a divida
Otaviano Canuto concorda, lembrando que o próprio governo está se vendo levado a encurtar o perfil de sua dívida para não ter que oferecer juros muito mais altos.
Para Felipe Salto, existem possibilidades de realizar novas políticas públicas. A história dos governos do presidente Lula depõe a favor dele. “Isso me faz ser otimista em 2027”, conclui o economista.












