Hatoum e Matar explicam na Flip como transformaram perdas políticas em literatura

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Hatoum e Matar explicam na Flip como transformaram perdas políticas em literatura


Quase duas décadas separam o sequestro do pai do escritor líbio Hisham Matar pelo regime de Muammar Gaddafi, em 1990, do desaparecimento da mãe que estrutura a trilogia de Milton Hatoum inspirada nos anos finais da ditadura militar brasileira.

Embora ocorridas em continentes distintos, as duas ausências se encontraram na tarde deste sábado (25), na tenda principal da Flip, numa conversa sobre memória, literatura e política.

Matar tinha 19 anos quando o pai, um opositor do ditador líbio, foi sequestrado no Cairo e enviado para a prisão de Abu Salim. Nunca mais voltou. Hatoum cresceu ouvindo histórias de amigos cujos pais sumiam durante a ditadura brasileira. Décadas depois, ambos transformaram essas experiências em matéria-prima para seus romances.

A organização da feira literária já havia emitido um aviso de que Matar participaria remotamente, de Londres, por conta de um imprevisto familiar que o havia impedido, na última hora, de vir ao Brasil.

O formato com Hatoum no palco e Matar no telão, apesar de incontornável no contexto, prejudicou a fluidez da conversa, mediada pelo jornalista, escritor e editor Paulo Roberto Pires. Ele optou por uma longa e detalhada apresentação dos autores, seus livros e respectivos prêmios antes de puxar a primeira pergunta sobre as semelhanças entre os personagens dos dois autores.

Khaleb, criado por Matar para “Meus Amigos” (Editora Âyiné), e Martim, da trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, que reúne “A Noite da Espera”, “Pontos de Fuga” e o recém-lançado “Dança de Enganos” (Companhia das Letras).

Vencedor do Prêmio Orwell de Ficção Política e indicado ao Booker Prize, o romance de Matar é inspirado em um episódio real, no qual o autor insere seu personagem.

Em 17 de abril de 1984, estudantes líbios encapuzados protestaram diante da embaixada do país em Londres quando um atirador abriu fogo contra o grupo, ferindo 11 líbios e matando uma policial britânica.

Ferido no protesto, o personagem Khaleb esconde os fatos para proteger a própria família na Líbia e, aos poucos, esses silêncios correm a própria intimidade com os parentes. “O medo e o segredo caminham juntos”, afirmou Matar.

Hatoum lembrou dos desaparecidos na ditadura militar brasileira e descreveu a situação como de um luto permanentemente suspenso. Sem um corpo para enterrar, disse, a perda nunca se conclui. “Quando você não consegue concluir o luto, ele vira uma questão permanente.”

Foi nesse ponto que a conversa deixou de ser apenas sobre ditaduras. Tornou-se uma reflexão sobre aquilo que a literatura é capaz de fazer onde a política e a memória coletiva parecem ter falhado.

Matar contou que, durante anos, acreditou que a maneira mais fiel de honrar o pai era procurá-lo: conversar com organizações de direitos humanos, reconstruir seus últimos passos e insistir em buscar o “desaparecido”. Até perceber que essa linguagem começava a apagar justamente a pessoa que ele desejava preservar.

“Quanto mais eu fazia isso, mais obscuro meu pai ficava para mim”, disse. “Comecei então a recuperar o pai que eu tinha antes do desaparecimento.”

Era essa, afinal, a tarefa da literatura que ambos pareciam descrever: devolver através da linguagem a humanidade a quem a violência política tentou reduzir a um número.

“Eu acho que as ditaduras sempre falham porque a nossa capacidade de encontrar solidariedade, de amar e de resgatar as memórias é muito maior do que o que elas produzem”, afirmou o líbio, que fez uma distinção entre o escritor enquanto intelectual público e enquanto artista. O primeiro, disse, tem o dever de desmontar as fachadas da opressão. O segundo precisa preservar uma liberdade que nem o próprio autor controla completamente. “O romance está à minha frente. Muitas vezes não sou a autoridade sobre ele.”

Hatoum concordou evocando Edward Said, intelectual palestino autor do clássico “Orientalismo”, de quem o brasileiro traduziu “Representações do Intelectual”. Segundo Hatoum, Said dizia que escritores não podem abrir mão de dizer a verdade ao poder, independentemente do governo ou da época. “O intelectual não deve silenciar. O silêncio é cúmplice da barbárie.”



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