A reestreia de “Rasga Coração – Teatro Oficina devora Villa-Lobos” estabelece um acerto de contas estético e territorial. Ao centrar-se no centenário de “Choros nº 10”, a Companhia Uzyna Uzona utiliza a partitura de Heitor Villa-Lobos como um mapa para navegar as tensões entre o Brasil arcaico e o contemporâneo, transformando a música em um ato de ocupação física e simbólica no bairro do Bixiga.
O conceito fundamental da montagem é a antropofagia praticada como exercício de sobrevivência. Villa-Lobos, que em 1926 deglutiu a modinha urbana e os sons da selva para projetar uma identidade nacional, é agora o próprio alimento do coro.
Sob a direção de Felipe Botelho e Roderick Himeros, a obra se torna organismo vivo, onde o erro e a improvisação são tão estruturantes quanto a regência. A massa sonora ganha corpo físico: é sobreposição bruta de ritmos, lamentos e ruídos que definem a disputa permanente por espaço e existência no cenário brasileiro.
Diferente do teatro convencional, onde a sonoridade ilustra o texto, aqui a música de Villa-Lobos é o elemento que gera a ação cênica. A arquitetura de Lina Bo Bardi no Teatro Oficina atua como caixa de ressonância onde a passarela estreita coloca o espectador dentro de uma densidade acústica monumental.
O roteiro musical propõe um arco que parte da simplicidade do violão de rua no “Choros nº 1”, atravessa as onomatopeias do “Choros nº 3” e a introspecção das “Bachianas nº 5”, até desaguar no clímax ritualístico do “Choros nº 10”. O encerramento com fragmentos de “Floresta do Amazonas” confere à peça uma urgência ecológica, tornando o palco um território de defesa da biodiversidade.
A participação da artista indígena Lilly Baniwa promove uma ruptura necessária na leitura da obra lobiana, historicamente marcada pela estilização dos temas originários para o consumo das elites. Ao trazer vocalizações tradicionais que entram em fricção direta com a escrita erudita, o espetáculo permite que a fonte original da inspiração de Villa-Lobos retome sua agência política e espiritual.
Suas intervenções são uma força que tensiona a partitura, criando diálogo real entre o Brasil imaginado pelo modernismo e o Brasil vivido pelos povos indígenas hoje. É um encontro de devoração mútua, onde a ancestralidade Baniwa digere a estrutura clássica para libertar o som de suas amarras coloniais.
Este espetáculo também carrega o peso simbólico da conquista do Parque do Rio Bixiga. Após décadas de resistência liderada por Zé Celso contra a pressão imobiliária, a montagem celebra a transformação do terreno vizinho em espaço público e agrofloresta. “Rasga Coração” funciona como liturgia de fundação e purificação desse novo território urbano.
Três perguntas para…
… Felipe Botelho
Nesta montagem, a música é a geradora da ação cênica. Como você, e o Roderick , trabalham com o elenco para que eles não sejam apenas cantores, mas “atuadores” que materializam a partitura no corpo?
Essa é uma questão central para nós dois no desenvolvimento de uma interpretação de Villa-Lobos dentro desse universo do Teatro Oficina. Desde 2011 a música de Villa-Lobos está presente nas peças do Zé Celso, mas o “Rasga Coração” nasceu do caminho contrário, que é ter a música como o princípio gerador das cenas e então buscar a criação dos quadros a partir desses sons.
Um ponto importante para isso é que temos o privilégio de trabalhar com um elenco de cantores que são também atores com experiência no Teatro Oficina, então eles já possuem essa linguagem de atuação que incorpora a musicalidade. Além disso, a própria música do Villa-Lobos já tem esse caráter ritual e vertiginoso, é uma música que não pode ser interpretada somente pela lógica mental e racional, ela exige de nós uma dedicação profunda para incorporar essa rítmica, ela realmente leva os atuadores aos seus limites.
Só é possível cantar e tocar esse repertório se dando por inteiro, voz, corpo e alma, para a música.
Como você conduz a regência para que os músicos, em vez de apenas acompanharem a cena, atuem como uma força física que tensiona o espetáculo dentro da dinâmica da passarela?
Assim como com os atuadores, estamos trabalhando com músicos já com experiência no teatro, o que é essencial pois é um trabalho bem diferente do trabalho de um músico para um show, já estão todos habituados com esse jogo com a cena. Sinto que o meu trabalho de regência é voltado a dar aos músicos as ferramentas para que no momento da peça eles estejam o mais livres o possível para contracenar com a energia dos atuadores na pista.
Como já nos conhecemos faz bastante tempo, já temos um bom entrosamento, conseguimos modular toda a banda juntos com uma simples troca de olhares. E acho que sobretudo o mais importante é que todos os músicos são criadores também neste trabalho, trazem idéias para os arranjos, sugerem a maneira de interpretar cada seção, então tudo isso contribui para esse resultado.
A escolha de peças como “Choros nº 3″ e “Floresta do Amazonas” sugere uma preocupação com o elemento silvestre e a ancestralidade. Como essas obras conversam com a arquitetura urbana e de concreto do Bixiga?
Existe uma confluência de temas muito grande entre Villa-Lobos e o trabalho do Teatro Oficina, então acho que esses elementos não vieram exatamente como uma preocupação do trabalho, mas sim como um ponto fundamental trazido por esses dois universos que estamos explorando.
Com as particularidades do pensamento de um homem de cem anos atrás, Villa-Lobos toca em temas que hoje em dia fazem mais sentido do que nunca, como a importância da natureza em resposta a um mundo em guerra e também a diversidade de expressões culturais em face da massificação que vivemos.
O “Rasga Coração” começou a se desenvolver como projeto em 2021, quando o Parque do Rio Bixiga era ainda um movimento que não podíamos prever quando teria o seu desfecho, então as interpretações que na época nasceram de uma luta pela criação do parque agora em 2026 são de certa maneira também uma celebração.
Mas com certeza sem abandonar o espírito guerreiro que existe na música do Villa pois a luta é permanente, já que na São Paulo de hoje dos teatros sendo fechados e demolidos, dos parques sendo transformados em polos gastronômicos, não existe luta ganha.
Teatro Oficina – rua Jaceguai, 520 – Bixiga, região central. Maio: 13 e 14, 20 e 29 a 31, às 20h. Junho: 5 a 8, às 20h Até 25/5. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br














