Mergulho no insólito do real

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Mergulho no insólito do real


A gaúcha Irka Barrios lança o suspense “Porto Alba” nesta sexta, na Livraria Leitura do Shopping Recife, em publicação da Autêntica Contemporânea


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Uma doença misteriosa assusta os habitantes de uma cidade fronteiriça, localizada às margens de um rio. Convocada para investigar o que está havendo, uma médica encontra ligações do “mal-do-rio” com a construção de uma hidrelétrica na região. Publicado pela Autêntica Contemporânea, o suspense “Porto Alba”, segundo romance de Irka Barrios, será lançado nesta sexta, 14, na Livraria Leitura do Shopping Recife, a partir das 7 da noite. Antes dos autógrafos, a autora conversa com a também escritora Patrícia Gonçalves Tenório.
Em entrevista à Literária, a escritora gaúcha afirma que a obra “tem muito de nossa relação com a natureza, a impossibilidade de ‘domarmos’ algo que é indomável, e nossa frustração em aceitarmos que somos submissos ao tempo, ao clima e à natureza”. Organizadora de um clube de leitura, Irka Barrios acredita que “ler deixou de ser um hábito solitário e passou a promover conversas, discussões acaloradas”.

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A tensão no enredo de “Porto Alba” recorda uma questão bem atual no Brasil e no mundo, que é o confronto forjado entre a ciência e o interesse coletivo, com a mediação muitas vezes ambígua da política. Como surgiu a ideia para a história do livro? Você examinou fatos reais específicos durante a pesquisa?
Irka Barrios – A ideia surgiu em dezembro de 2019. Jornalistas já anunciavam uma doença respiratória que se originara em Wuhan (China) com potencial de se espalhar pelo mundo. Imagino que as notícias me impressionaram a ponto de provocar um sonho maluco sobre uma epidemia de piolhos. É claro que meu viés de realismo mágico se instalou: epidemia de piolhos tem um quê de realidade absurda que pode atingir tons de comicidade. Eu mal poderia imaginar que estávamos prestes a enfrentar uma pandemia que provocaria as reações mais absurdas em pessoas sensatas.
Guardo a certeza de que se não tivéssemos passado por tudo o que passamos, “Porto Alba” correria o risco de estar totalmente descolado da realidade. Não está. A disseminação de fake news, as pós-verdades, teorias conspiratórias, redes sociais que comunicam em velocidade recorde, tudo isso propiciou o ambiente de medo e delírio que está presente em “Porto Alba”. Também quis falar de problemas locais de minha região natal. Conheço as promessas/ameaças que rondam uma localidade prestes a desaparecer. Aprofundei o interesse, fiz pesquisas sobre meio ambiente, barragens, hidrelétricas. Interessei-me, sobretudo, pelo impacto socioeconômico destas construções. A partir das relações sociais, desenvolvi personagens ansiosos por um futuro que talvez nunca chegue. Quis narrar uma comunidade que luta com as armas que tem.

Outro enfoque é a ameaça ao território e ao meio ambiente, sem abdicar da complexidade que pode permear o debate. Como “Porto Alba” apresenta pontos de vista diversos nesse debate, fazendo a ficção tangenciar a realidade?
Irka Barrios – Durante todo o tempo da escrita, procurei descrever pessoas comuns com medos comuns e ideologias diversas. Me interessa muito compreender os caminhos que uma linha de raciocínio percorre quando uma pessoa quer provar seu ponto de vista. Acho que a comunidade que vive em Porto Alba tem muito disso, e é uma questão bastante contemporânea. As pessoas se agarram em certezas quando tudo o que as rodeia só devolve incertezas.
É difícil compreender o que as personagens da obra defendem, a que tipo de ideologia ou bandeira política se agarram. Penso que agem desta forma porque têm medo. Sentem-se abandonados à própria sorte, e pessoas desesperadas são imprevisíveis. Segui esta linha para delinear as personagens. Mas, confesso, não foi fácil. Foram seis anos pensando e repensando situações e atitudes.

De que maneira você enxerga essa nova obra, em relação aos seus livros anteriores? O que “Porto Alba” significa para você, Irka?
Irka Barrios – “Porto Alba” traz questões que me inquietam demais, como o corpo e a sexualidade da mulher contemporânea. A história parte de um mistério, que é a doença local, e se abre para outros cantos. Gosto muito de Julio Cortázar, e de sua fala sobre o romance ter o formato de uma árvore, com galhos que se desenvolvem bem e outros que mal crescem. A ideia do romance segue esta linha.
Em relação aos meus livros anteriores, “Porto Alba” se aproxima quanto às temáticas já citadas e se afasta porque não se aprofunda no horror. Eu acho que o livro tem cenas com elementos caros ao gênero, mas não pode ser classificado como terror. Encaixa-se melhor no insólito, o que me agrada bastante.
Para mim, “Porto Alba” significa um novo olhar sobre a personagem mulher, é quase como se a Lauren, agora, fosse uma adulta. As questões sexuais não cessam, elas se redirecionam. E assim deve ser até a velhice, penso eu. Mas não é só isso: o livro tem muito de nossa relação com a natureza, a impossibilidade de ‘domarmos’ algo que é indomável, e nossa frustração em aceitarmos que somos submissos ao tempo, ao clima e à natureza.
O mais irônico de tudo é que comecei a escrever sobre uma sociedade prestes a desaparecer submersa e acabei atingida pela enchente de 2024. Em 2020, passei a seguir o MAB (Movimento de Atingidos por Barragens) e apoiar suas ações. Após a enchente, enquanto limpávamos o bairro, fui alimentada pelas quentinhas do MAB. É um dos grandes aprendizados, tudo está conectado.

Organizadora do clube de leitura Escuro Medo, como você observa o crescimento dos clubes de leitura no Brasil, e os efeitos desse crescimento para os leitores e o mercado editorial?
Irka Barrios – Sou a maior entusiasta de clubes de leitura. O Escuro Medo já tem cinco anos e é um dos projetos de meu coração. Neste tempo todo, só cancelamos um encontro, que foi durante a enchente de 2024. O Brasil vive um período muito promissor, leitores estão descobrindo e se envolvendo com a produção nacional, e muito deste movimento é devido à disseminação dos clubes de leitura. Percebo um grande otimismo, ler deixou de ser um hábito solitário e passou a promover conversas, discussões acaloradas. Gosto e apoio, ainda há muito potencial de crescimento.






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