Quando quem manda usa palavras difíceis que ninguém entende, o silêncio do povo quase nunca quer dizer concordância. Quer dizer medo. É dessa ferida que nasce a montagem de “O Alienista” pela CiaTeatro Epigenia, criada e dirigida por Gustavo Paso. A ideia é tirar a novela de Machado de Assis daquela gaveta confortável dos livros escolares e trazer ela para o meio da conversa sobre poder e submissão.
No palco, a história de Simão Bacamarte deixa de lado o realismo comportado do século 19. O cenário aposta na geometria torta do cinema expressionista alemão dos anos 1920: portas em forma de trapézio, planos inclinados e sombras desenhadas pela luz monocromática de Paulo Cesar Medeiros. Não tem cor para amenizar o confinamento da Casa Verde —tudo se resolve no preto, no cinza e no branco, transformando a vila de Itaguaí numa gravura viva sobre a loucura que se instalou nas instituições.
O texto, escrito por Paso e Celso Taddei, soma ao cinismo de Machado a lógica do absurdo da patafísica de Alfred Jarry. Para justificar trancar cidadãos sem motivo, Bacamarte inventa neologismos científicos pomposos que calam qualquer pergunta. Quanto menos a comunidade entende os termos médicos, mais rápido ela se ajoelha diante do diagnóstico. Roger Gobeth dá vida a esse alienista com a frieza mecânica de um burocrata convicto. Um homem que desligou os próprios sentimentos em nome do método.
Do outro lado da aridez do protagonista, Luciana Fávero dá densidade trágica a Dona Evarista, que oscila entre o encanto pelo status provinciano e a tristeza de quem percebe, tarde demais, que o capricho do marido não poupa ninguém.
Em volta do casal, catorze atores se movem com precisão coreográfica conduzida por Édio Nunes, alternando com desenvoltura a polidez fingida das elites e os espasmos dos internados, tudo embalado pela música de André Poyart.
Mesmo quando quebra a ilusão de época pra cutucar escândalos financeiros de hoje e a baixeza da politicagem local, o espetáculo não perde o foco do que importa: a facilidade com que entregamos para outra pessoa a chave da nossa própria lucidez. No fim, a loucura mais perigosa de Itaguaí não está trancada no asilo, está solta nas ruas, disfarçada de ordem e bom senso.
Três perguntas para…
… Roger Gobeth
O papel de Simão Bacamarte já carrega um peso clássico no imaginário brasileiro. Como foi o processo de encontrar uma assinatura própria para o personagem?
Em 2024, eu estava excursionando pelo interior de São Paulo com “De Perto Ninguém é Normal”, outro trabalho da CiaTeatro Epigenia, quando “O Alienista” foi selecionado pela Lei Paulo Gustavo para fazer 16 apresentações em cidades do ABC. Foi então que fui convidado para viver o Bacamarte.
Lembro que, naquele momento, eu fazia nos finais de semana o Mortimer no “De Perto”, outro personagem grandioso que também me exigia demais fisicamente, e durante a semana a gente ensaiava “O Alienista”. Foi um período de grande exaustão física.
Hoje entendo que muito daquela exaustão faz parte do meu Bacamarte. Ele atravessa a história com uma energia inesgotável, mas carrega um cansaço que talvez não se perceba de forma clara, mas que está completamente intrínseco àquilo que criei para o personagem. A partir disso, trouxe para a cena a curva de ascensão de poder de alguém que, a princípio não se enxerga como autoritário e realmente acredita estar a serviço da sociedade e tudo isso junto, foi norteando para mim, a tragédia e a comédia do personagem: suas deformidades físicas e psíquicas, seu humor sarcástico e seus arroubos de loucura.
O texto coloca em xeque a fronteira entre razão, fanatismo e método científico. O que mais o instiga nas contradições éticas desse médico?
O que mais me instiga é que o Simão Bacamarte não começa necessariamente errado, não é? Ele começa com uma tese legítima: onde está o limite entre a razão e a loucura? No início, ele realmente acredita que está tentando compreender isso. O problema começa quando ele passa a estabelecer sozinho esse limite e acho que é justamente aí que o conhecimento vai dando lugar ao fanatismo.
Esse momento de virada, minha passagem favorita na peça, que é quando o Simão mostra sua própria loucura e destempero, também foi muito importante para a construção do meu Bacamarte. Eu nunca o julguei, e é nesse momento que ele fica mais perigoso por se tornar mais humano.
O que a trajetória desse homem que se fecha em suas próprias certezas tem a dizer para o público de hoje sobre o fascínio cego pelo discurso de autoridade?
Acho que Machado toca numa questão muito profunda e real: nós gostamos de certezas. Existe um certo conforto em encontrar alguém que diga: “eu sei o que é certo, eu sei o que é normal, eu sei quem está errado”. A gente vem sendo impactado de todos os lados por esse tipo de conteúdo.
O Bacamarte vai construindo essa certeza dentro dele e a medida que seu poder aumenta, ele passa a ter cada vez menos espaço para a dúvida.
“O Alienista” parece falar sobre loucura, mas fala fundamentalmente sobre poder. Sobre quem tem o poder de nomear, classificar, incluir e excluir. E aí surgem para mim as duas grandes perguntas: quando começamos a considerar normal aquilo que antes nos parecia absurdo e quem vigia aquele que tem o poder de julgar os outros?
Teatroiquè — Rua Iquiririm, 110, Butantã, zona oeste. Sexta, 21h. Sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 25/10. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em
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