Até as crianças sabem qual o destino de uma semente quando cai do seu fruto —firmar-se na terra, crescer, seguir o ciclo da vida. Mas o carocinho de mamão criado por Priscilla Kellen vai contra a ordem natural das coisas em “Papaya”, pois aprende a criar raízes para ser ainda mais livre. A animação chega nesta quinta-feira às salas de cinema do país após ter desafiado fronteiras, como a sua protagonista.
Sem diálogos ao longo de seus 74 minutos, com visual de desenho infantil, a jornada dessa semente sonhadora chamou a atenção de festivais como os de Brasília e Tiradentes —mais conhecidos por trabalhos experimentais—, o que pavimentou a presença numa mostra paralela do Festival de Berlim, tornando-se a primeira animação nacional a competir por lá, e depois em Xangai.
“Foi uma surpresa”, diz Kellen, artista com experiência em TV, cinema, livros e design gráfico. “Em Berlim não ficou restrito ao público infantil. Disseram lá que o filme era transgeracional.” É uma boa definição para a história de uma semente que rejeita seu destino para aprender a voar e, nisso, descobre as misérias do mundo humano e as belezas da natureza.
Esse é o primeiro voo solo de Kellen na direção de longas ao lado do Birdo Studio e produção do premiado diretor Alê Abreu, com quem ela trabalhou nos bastidores de “Garoto Cósmico”, de 2007, e “O Menino e o Mundo”, de 2013. Esta última, a primeira animação brasileira indicada ao Oscar, já trazia um olhar poético que ia muito além do universo das crianças.
Ao mesmo tempo em que mostra um pequeno ser que desvenda o mundo, “Papaya” reflete as próprias descobertas da diretora com seu filho pequeno, como fica sugerido pela personagem da Mãe Mamoeiro —com voz da cantora Tulipa Ruiz, que participa da trilha lúdica assinada por Talita del Collado. Para Kellen, os frutos da árvore remetem ao formato dos seios e, quando maduros, explodem e espalham suas sementes como num parto.
Foi a partir de um prêmio vencido por “O Menino e o Mundo” que Kellen iniciou o projeto, partindo de conceitos de uma ideia engavetada da série “Kaaak”, sobre um ser capaz de mudar de forma. Era 2018, ela lembra, quando os protestos contra o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro agitaram na artista uma vontade de cutucar o patriarcado, abordando o universo materno.
Além do senso de liberdade da protagonista, a cineasta emprestou dali o gosto pelas formas geométricas e recortes de papel colorido. Tomando como referência colagens de Henri Matisse e trabalhos de Burle Marx e Frida Kahlo, ela deu à luz um universo tropicalista e de forte teor ecológico com plantas, fungos, insetos, pássaros e até seres fantasiosos —como libélulas que nascem de arco-íris e triângulos voadores. “Não quis explicar o que eram, bastava algo para a semente desejar aquela liberdade”, diz a diretora.
Com seu ritmo relaxado, o filme não será um desafio aos pequenos e aos adultos alucinados pelos estímulos das telas? “Meu filho gostava muito do curta ‘Wonder’ [filme abstrato do japonês Mirai Mizue], ele via em casa e se divertia contando histórias que não existiam ali”, diz Kellen, comparando a fruição artística com a educação alimentar num mundo tomado por ultraprocessados. “Você pode apresentar uma banana ou um pepino para a criança, e ela vai gostar.”













