O calor incomum que fez este ano em Londres não impediu uma aglomeração de “trench coats”, os casacos feitos para dias chuvosos, na sala Prince Consort Gallery, raramente aberta no museu Victoria and Albert, o V&A
Homens e mulheres circulavam com casacos com cor de mel para prestigiar a abertura da mostra que celebra a história e o artesanato por trás dessa peça de roupa. A exposição “The Burberry Trench: Crafting an Icon”, gratuita, fica em cartaz até 3 de janeiro no museu de South Kensington, na capital britânica.
O “trench coat” está entre os itens de moda mais amados, fiáveis e revolucionários dos últimos quase 150 anos. E se Londres não vivesse de verões frios e chuvosos, essa peça talvez nunca tivesse sido criada.
Em 1879, na busca por uma alternativa aos materiais impermeáveis pesados e emborrachados da época, Thomas Burberry inventou um tecido feito de sarja com trama fechada, que chamou de “gabardine”.
O material leve, flexível e durável se tornou a base de capas usadas em atividades ao ar livre, como o ciclismo. Depois, em 1912, foi usado para o casaco “tielocken”, com uma fivela na parte superior e gola com botões.
O “tielocken” foi considerado o precursor do “trench coat”, que hoje pode ser visto em versões com bordado, estampado, de seda ou metalizado. O casaco é ressignificado a cada estação. A trajetória da peça é acompanhada por suas duas bases indissociáveis, o gabardine e o clássico padrão xadrez batizado de “Burberry check”.
Nesse cenário misterioso, com luzes baixas e armários de mogno, se revelam itens inéditos dos arquivos da marca e do museu, como um conjunto de esqui em gabardine vermelho-cereja dos anos 1920, usado por Margaret Whigham, posteriormente Duquesa de Argyll.
“A jaqueta remete ao estilo de um ‘trench coat’ curto, e o conjunto inclui luvas e um chapéu combinando, com uma decoração em forma de laço”, diz Oriole Cullen, curadora sênior de moda e têxteis do museu V&A.
Segundo ela, este é um exemplo elegante da abordagem da Burberry para o vestuário prático de atividades ao ar livre porque funcionalidade e moda. “Também apresentamos um excelente look masculino dos anos 1980, que inclui um ‘trench coat’ verde escuro da linha Thomas Burberry, lançada no final daquela década para atrair um público jovem.”
A expografia se divide em três partes, Invenção, Arte e Criatividade. “A exposição é pequena, por isso tivemos de ser rigorosos na edição da narrativa que íamos contar e no que poderíamos apresentar”, afirma Cullen.
“Na primeira parte, nos concentramos em peças históricas fundamentais que ilustravam elementos como o tecido gabardine e os aspectos militares.”
Durante a Primeira Guerra Mundial, a etiqueta desenvolveu o sobretudo para uso militar, com detalhes funcionais como ombreiras, argolas em D, aba de proteção contra tempestades e quebra-vento, incorporados com propósitos específicos.
Na época, mais de 500 mil sobretudos Burberry foram usados por membros das forças armadas. Em uma das vitrines, uma versão de 1939, com as insígnias de coroa e estrela nas dragonas, indica que foi usada por um tenente-coronel do Exército Britânico.
Apesar do aperfeiçoamento pensado para as batalhas nas trincheiras, o modelo permanecia atraente e prático o suficiente para ser incorporado ao estilo urbano. Muito semelhante a esse exemplar, há uma versão que pertenceu a Edwin Hardy Amies, figura central no mundo da moda londrina.
Amies foi estilista da Rainha Elizabeth 2ª e proprietário de uma importante casa de moda na Savile Row, rua famosa pelas lojas de alfaiataria, e costurou uma etiqueta com seu próprio nome na peça para identificá-la.
Na parte central da exposição, o destaque recai sobre os códigos e a confecção do “trench coat”, produzido na fábrica Castleford, em Yorkshire, adquirida pela Burberry em 1972. O local mantém a tradição e a experiência de seus artesãos qualificados e é onde todos os “trench coats” da linha Heritage são confeccionados.
Etiquetas, amostras de tecido, botões, fivelas e partes da modelagem são dissecadas, com detalhes que incluem a gola, composta por oito peças de tecido, incluindo uma camada interna de linho firme para conferir estrutura. São necessários 270 pontos para curvar a gola de modo que ela se ajuste ao pescoço.
Para o fechamento da peça, são acoplados 21 botões e quatro fivelas, no cinto, na tira da gola e nos punhos. Antes feitos de chifre, os botões da Burberry são agora compostos por 90% de resina de base biológica.
Na seção final, concentram-se as duas últimas décadas e a maneira como a Burberry se tornou uma marca fundamental de moda no século 21. Da era Christopher Bailey, entre 2001 e 2018, ao atual diretor criativo, Daniel Lee, passando pelo período de Riccardo Tisci, entre 2018 e 2022, esse é o espaço em que fica perceptível como o “trench coat” pode ser camaleônico.
Reinterpretado em diferentes comprimentos e materiais, como ráfia, couro de jacaré e laminado metalizado de seda, chega até a se transformar em vestido.
“Embora as características permaneçam, o estilo do ‘trench coat’ se adapta e acompanha sutilmente as silhuetas e as modas de cada época. É justamente por isso que ele permaneceu um clássico”, afirma Cullen.
Em termos culturais, de acordo com a curadora, o “trench coat” tornou-se um arquétipo, item universal que pode ser usado por qualquer pessoa e a qualquer momento. “É uma dessas peças que são imediatamente reconhecíveis e frequentemente utilizadas como elemento de caracterização no cinema e na literatura.”
O evento também serve como uma espécie de comemoração pela abertura da The Burberry Gallery, no outono de 2028. A transformação das galerias de moda do V&A South Kensington é apoiada pela grife como parte de uma parceria plurianual com o museu.
“O V&A foi criado como um museu de arte e design em meados do século 19 e, desde sua inauguração, manteve uma relação próxima com profissionais e designers contemporâneos. Não é incomum que apresente moda contemporânea. No caso da exposição da Burberry, os visitantes têm respondido e vindo ao museu vestidos com suas próprias versões do ‘trench coat'”, diz Cullen.
Não é a primeira vez que a marca é homenageada numa mostra. Peças de vestuário da Burberry foram expostas em “Britain Can Make It”, realizada entre setembro e dezembro de 1946. Com o apoio do governo britânico, a mostra buscava destacar as indústrias de design e manufatura da Grã-Bretanha do pós-guerra.














