‘Minha literatura é mais corajosa que eu’, diz Airton Souza ao escrever a sua dor

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‘Minha literatura é mais corajosa que eu’, diz Airton Souza ao escrever a sua dor


O escritor paraense Airton Souza conta que o tema de seu segundo romance surgiu dois dias depois da morte de seu pai, em 2015. “Eu estava dormindo quando senti ele me tocar. Então veio essa frase: ‘o mar é longe’.”

O pai, o garimpeiro Raimundo Gonçalves, 60, era um homem violento com os filhos e com a esposa, principalmente quando bebia.

Nos anos 1980, a família do escritor migrou do Piauí para Marabá, no interior do Pará, em busca do sonho do garimpo —tema do primeiro romance de Souza, “Outono de Carne Estranha”, vencedor Prêmio Sesc de Literatura e finalista do prêmio Oceanos.

Em 2013, Júlio Cesar Souza, irmão de Airton, foi morto a tiros na cidade, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Tinha 33 anos. “O Estado brasileiro nunca deu qualquer resposta”, diz o autor, em entrevista. “Não houve investigação efetiva, julgamento ou prisões.”

Seus pais nunca se recuperaram da morte precoce do filho. Maria Barbosa, mãe do autor e de outros sete irmãos, morreu um mês depois do marido, aos 51 anos.

Poeta desde a adolescência, Souza se refugiou na literatura. Seu livro é, de certa forma, uma releitura dessa tragédia familiar, mas com enredo e contornos distintos.

“A minha escrita é mais corajosa do que eu”, diz ele. “Enquanto meu corpo tenta fugir da realidade para sobreviver, minha literatura vai para dentro dela e diz: ‘A gente precisa pensar sobre isso, a gente precisa contar essa história e refletir sobre ela’.”

Ao longo do livro, o título se repete como pergunta: “O mar é longe?”. Essa peregrinação rumo ao oceano é protagonizada por dois irmãos que veem no mar um refúgio contra as agressões de um pai violento e homofóbico.

A história começa na pequena cidade de Rosário, no Maranhão, às margens do rio Itaperucu, onde o pai tira o sustento como pescador. Até que um redemoinho termina em naufrágio. A família sobrevive, mas seu meio de vida vai para debaixo do Itaperucu.

O pai culpa o filho mais velho, Balta, pelo desastre com o barco. As agressões se tornam insustentáveis, e os irmãos resolvem fugir, deixando para trás a mãe —também ela vítima da violência do patriarca.

“Por que ele nunca falou de amor com a gente? Espero que um dia o pai seja civilizado igual aos animais”, diz o narrador, o irmão mais novo. “Acho que ele vai me matar”, responde Balta, constantemente xingado de “veado”, “praga” e “marica”.

O caminho do mar é percorrido a pé em estradas vazias e perigosas no interior do Maranhão. O livro é dedicado a esses muitos brasileiros, diz Airton: gays, lésbicas e transexuais que vão parar nas ruas fugindo do preconceito e da agressividade no seio familiar.

“Coloco sempre a culpa na pobreza extrema”, diz o escritor, criado na periferia de Marabá. “A pobreza é uma grande barreira para o conhecimento e para a aceitação.”

Airton Souza já fazia literatura antes mesmo de se tornar leitor de livros. “Escrevia poemas no caderno da escola. Era um colégio muito precário. Não tínhamos acesso a livros, eu não tinha nem noção do que significava a palavra literatura ou o que ela era capaz de fazer na vida de uma pessoa.”

Criado como uma “máquina de trabalho desde cedo”, ele foi feirante, camelô e operador do jogo do bicho. Decidiu tirar o atraso literário com mais de 30 anos. “Comecei a ler num ritmo frenético para recuperar o tempo perdido. Leio cinco ou seis livros ao mesmo tempo”, diz.

Airton depois se formou em letras, fez mestrado e doutorado. Foi professor da rede pública e, hoje, é responsável por um programa de formação de professores em Itupiranga, cidade a cerca de 50 quilômetros de Marabá.

Já sua biblioteca particular tem quase 10 mil livros, segundo ele, comprados pela internet ou em viagens para feiras literárias. O acervo é compartilhado com amigos e parentes, porque o acesso a literatura ainda é um desafio para os moradores da região. “Marabá tem quase 300 mil habitantes, e nenhuma livraria ou sebo.”

Se para seus personagens o mar surge como promessa de salvação, para o autor a literatura funciona como um “antídoto contra a perversidade”. “Ela é um caminho para a ternura, o amor e a cumplicidade.”



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