Relógios de luxo, mesmo escondidos sob a manga, viram símbolos de status

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Relógios de luxo, mesmo escondidos sob a manga, viram símbolos de status


Dá para reconhecer de longe uma Louis Vuitton carregada a tiracolo, uma Birkin pendurada no braço ou uma Chanel ajustada ao ombro. Para as mulheres, bolsas de luxo são símbolos de poder há décadas.

Com preços na casa das dezenas de milhares de reais, elas denotam riqueza —carregar dentro objetos como o celular, a carteira e o batom é só um bônus, já que o que importa mesmo é exibir o acessório nos eventos sociais.

Para os homens, bolsas também podem conferir status, como mostrou o atacante da Noruega Erling Haaland, que viralizou durante a Copa do Mundo com sua coleção de peças Hermès raras. Mas o universo masculino parece preferir ícones de sucesso tão ou mais caros que bolsas, porém mais discretos —às vezes tão sutis que mal se veem, escondidos sob a manga da camisa—, como os relógios de luxo.

Numa noite de junho, um grupo de aficionados se reuniu num restaurante de São Paulo para beber vinho e testar nos próprios pulsos algumas novidades da relojoaria. Os objetos de desejo, a partir dos R$ 2.000, eram relógios automáticos, que funcionam com mecanismo a corda. Modelos a bateria não eram sequer mencionados e a frase “smartwatch não é relógio”, em referência aos aparelhos que monitoram a saúde, entre outras funções, estava na ponta da língua de todos.

Segundo os colecionadores daquela confraria, o mercado para os relógios de luxo está em crescimento no Brasil. Este objeto para ver as horas virou ícone do guarda-roupa dos endinheirados, impulsionado por influenciadores masculinos que divulgam os novos modelos, assim como as blogueiras propagandeavam roupas —misturando comentário de moda, conhecimento técnico e estímulo ao consumo.

Pedro Nog, consultor de estilo e editor do canal Moda Masculina no YouTube e no Instagram, destaca o papel do relógio como um símbolo de poder móvel. “O cara tem um carro caro, só que o carro é quando ele está dirigindo. O relógio, o cara vai levar dentro da reunião, num jantar, vai levar em todo lugar. Boa parte do fascínio vem disso”, afirma.

Nog, que ajuda homens de negócios a montarem seus guarda-roupas, diz que os executivos se comparam uns aos outros. Ou seja, numa reunião de trabalho, comentar o relógio do colega é uma forma de quebrar o gelo e iniciar uma conversa que pode gerar um acordo. E este relógio, via de regra, nunca é barato. “Minha sensação é de que a pressão feminina é mais estética e a masculina é mais financeira.”

Além disso, o consultor argumenta que máquinas como aviões e carros hipnotizam os homens, e o relógio “é uma máquina em miniatura”. Ele observa que os modelos a quartzo —como os da japonesa Casio— têm alta precisão e são mais finos e compactos, mas defende que os automáticos, mesmo maiores, “são pequenas obras de engenharia que você coloca no pulso, uma coisa meio mágica”.

Nos relógios a quartzo, mais populares e de valores mais acessíveis, na casa das centenas de reais, o mecanismo marca a hora certa sem precisar de ajuste por semanas. Ele não deixa de funcionar quando está na gaveta, embora perca alguns segundos com o passar dos dias.

Nos modelos automáticos, o relógio desregula alguns segundos diariamente e os ponteiros cessam o movimento depois de um determinado número de horas ou de dias sem uso. Para que voltem a funcionar, é preciso dar corda.

Esta é a graça, assim como pôr a agulha no vinil e virar o lado do disco fascina quem prefere o som analógico. Na prática, um Rolex de R$ 350 mil dá mais trabalho ao usuário do que um Casio de R$ 350 —e tende a ser menos preciso. Contudo, o valor de uma peça de relojoaria não está na exatidão, mas na tradição, na engenharia manual, na história por trás do relógio e no valor percebido da marca.

Jose Mauro Racoski, importante relojoeiro e um dos responsáveis pela assistência técnica no Brasil de marcas de alta relojoaria suíça como Audemars Piguet e Jaeger-LeCoultre, destaca o papel histórico do relógio, da marcação do tempo com modelos de sol e ampulhetas até seu uso nas navegações e, mais tarde, nas fábricas da era industrial e na aviação. “O relógio faz parte da evolução da humanidade”, diz ele.

Numa escala menor, Racoski conta que cuida de peças centenárias. Relógios passam de geração em geração numa mesma família e, se estiverem com a manutenção em dia, podem durar séculos, como máquinas eternas.

De acordo com ele, o Brasil vive hoje a mesma explosão da horologia que já havia ocorrido no exterior três ou quatro décadas atrás —acelerada agora pela tecnologia da informação e pelas redes sociais, que dão acesso mais rápido às novidades do setor.

O contexto cultural ajuda. Desde o sucesso da série “Succession”, sobre a troca de comando na empresa de uma família bilionária, a estética do “old money” voltou à moda. Suéteres de cashmere, sapatos mocassim e calças jeans de cintura alta encantam quem tem dinheiro de berço ou quer parecer aristocrata, e este look é mais afeito a um Cartier do que a um Apple Watch.

Na mesma toada, os influenciadores ensinam a combinar a cor do mostrador de um relógio com o paletó, enquanto destrincham os aspectos técnicos das peças.

Em paralelo, marcas contratam garotos-propaganda para gerar desejo. Boa parte deles vem de esportes praticados pela elite, como tênis e Fórmula 1. O piloto Felipe Massa exibe modelos da Richard Mille, Novak Djokovic compete em Roland Garros com um Hublot no pulso e o ex-jogador de futebol David Beckham anuncia para a Tudor.

Jogadores brasileiros de futebol também são motores fortíssimos de consumo, mesmo que não sejam oficialmente contratados pelas marcas e ostentem os relógios por conta própria. Durante uma folga na Copa do Mundo, Neymar exibiu nas redes um relógio de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5 milhões, da Jacob & Co., feito de ouro rosé, com figuras de um dragão e de um tigre, pintados à mão, cravejado com centenas de diamantes.

Embora representantes do setor falem em crescimento e as principais marcas da alta relojoaria possam ser compradas no Brasil, como Rolex e IWC Schaffhausen, o Brasil não está entre os grandes importadores de relógios suíços, assim como nenhuma outra nação da América Latina.

Segundo o relatório mais recente da Federação da Indústria Relojoeira Suíça, os maiores mercados para relógios de pulso do país europeu são Estados Unidos, França, Reino Unido, Japão, Hong Kong e Singapura.

Michelle Piñeiro, diretora de marketing da Montecarlo Joias, varejista de joias e relógios há 45 anos, afirma que, depois do fervor dos smartwatches, os relógios tradicionais começaram a reagir. Isto não é um fenômeno passageiro, argumenta, porque os relógios, sobretudo os automáticos, viraram um contraponto ao ambiente digital ao remeterem à “tradição, maquinário, engrenagens, a uma experiência física”.

Segundo Piñeiro, o que antes era visto como “coisa de senhorzinho” hoje também conquista jovens de 25 a 30 anos, que juntam dinheiro para comprar seu primeiro relógio. A nova geração, acrescenta ela, intercala relógios tradicionais e smartwatches na rotina —um mede produtividade e desempenho físico, o outro representa a busca por tradição.

Nog, o consultor de estilo, segue lógica parecida. “O smartwatch controla um pouco a gente, porque o tempo inteiro é performance. Tô gastando caloria? Quantos passos eu dei? Acho uma absoluta prisão. E o relógio, não. Ele só está te mostrando as horas. Parece que você é dono do seu tempo.”



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