No lugarejo em que Pinguinho era o líder das brincadeiras, os dias mais alegres eram aqueles em que morria um dos moradores. Livre da vigilância adulta e da escola, as crianças se esbaldavam ao ar livre e gostavam de ver o povoado ocupado por visitantes que chegavam de fora para as homenagens fúnebres.
O mote do conto “Pinguinho”, do escritor maranhense Viriato Correia, é a base do espetáculo “Saudade”, do grupo Os Gerados, em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo, após apresentações em Minas Gerais, no Distrito Federal e no Rio de Janeiro.
Para a meninada do vilarejo, a morte muda de tom a partir de um acontecimento que as faz compreender a dor da perda. Na montagem teatral, no entanto, a tristeza é tratada de forma lúdica e se transforma em lembranças gostosas e em sorrisos de saudade.
O grupo de Campinas começou a pensar na peça durante um retiro realizado na pandemia. Os artistas foram para o sítio da família do diretor Douglas Novais, no interior de São Paulo, e se encantaram com o livro “Variações sobre o Prazer”, de Rubem Alves (1933-2014), tratado como um padrinho do espetáculo.
A obra fez Os Geraldos refletirem sobre a pulsão da vida, típica dos escritos do psicanalista e educador, e a pulsão da morte, que rondou a todos no período em que o coronavírus ameaçava a humanidade.
Apesar de a leitura ser deliciosa, faltava uma linha dramatúrgica, encontrada quando o grupo leu o texto maranhense, em uma fase de pesquisas sobre a língua portuguesa.
“Nos deparamos com esse conto uns três meses antes de irmos para a Espanha”, lembra a atriz Paula Guerreiro, que assina a dramaturgia ao lado de Julia Cavalcanti.
Na fase inicial da pesquisa, em 2024, o grupo participou de uma residência artística na Catalunha, em uma viagem que foi expandida para a Itália, França e Inglaterra.
Durante um mês, Os Geraldos viveram como brincantes em museus e igrejas, improvisando cenas que viriam a fazer parte de “Saudade”. “O que é um grupo de atores senão um grupo de crianças?”, pergunta Paula.
Em Londres, por exemplo, eles viram um piano no museu Victoria and Albert e decidiram apresentar um número musical. Na Itália, uma espectadora passou o chapéu por conta própria e arrecadou uns trocados para os artistas. E em San Martin, na Espanha, o grupo entrou em uma igreja, ligou um órgão e experimentou a sonoridade das canções em um ambiente histórico.
Nas andanças pela Europa e pelo Brasil, a trupe reuniu objetos levados para o palco, como uma cobra de pelúcia encontrada em um posto de gasolina no interior paulista e um guarda-chuva trazida do Museu do Prado, em Madri.
“É dicotômico, como nossa vida de artista: às vezes no luxo, em outras vezes sem uma pia para lavar as mãos”, afirma o diretor. Uma parte do figurino é confeccionada com algodão cru, 100% natural, e a outra foi comprada no comércio popular da rua 25 de Março.
No cenário, assinado por Novais, um chão de vidro ganha destaque na parte final do espetáculo, quando as crianças compreendem a dor de uma perda e os diversos significados das despedidas.
Além do espírito de traquinagem, os atores trazem de volta na encenação alguns brinquedos do passado, como o pogobol e o vai-e-vem. Jogam cabra-cega e usam roupas inspiradas em fotos tiradas na infância de cada um.
O espetáculo reúne 13 artistas, com música ao vivo, canções em português, espanhol, italiano, francês e latim e uma atuação performática do maestro Everton Gennari, com figurino, movimentos e maquiagem que lembram Ney Matogrosso na fase dos Secos & Molhados.
Em agosto, ‘Saudade” vai participar do festival PerformAzioni, na Itália, com apresentações em uma igreja, no pátio de um castelo medieval e em uma praça pública.
Criado há 18 anos, Os Geraldos desenvolvem pesquisa em teatro popular baseado na relação direta com a plateia. O grupo administra desde 2017 o Teatro de Arte e Ofício, em Campinas e, em uma de suas definições, dizem que são amigos que fazem teatro.











