“O trabalhador médio sente 11 tipos de medo num único dia de trabalho” me disse uma amiga durante um jantar em que conversávamos sobre o mundo corporativo e suas idiossincrasias.
A frase era fruto de um telefone sem fio que começou não sei onde, mas chegou aos ouvidos desta amiga durante uma palestra. O ambiente deu certa credibilidade à informação, assimilada como verdadeira pela ouvinte que me retransmitiu o dado.
Ao ouvi-la, analisei sua veracidade primeiro a partir da minha própria experiência. Me recordei de alguns ambientes corporativos em que trabalhei e concluí que sim, a frase soava verdadeira e reconfortante. Pelo visto eu não era a única a carregar o medo nas costas, tomando diferentes formas, ao longo de um único dia de trabalho.
No dia seguinte, ainda impactada com a informação, fui pesquisar qual estudo havia concluído o que para mim havia sido a realidade por tanto tempo. E, para minha surpresa, não encontrei nada. Nem Google, nem ChatGPT foram capazes de apontar de onde vinha aquela frase de impacto lançada de forma tão confiante diante de uma plateia atenta. Fui então obrigada a aceitar que o estudo nunca existiu.
Tudo bem, talvez nenhum estudo jamais tenha conseguido quantificar quantos medos o trabalhador médio sente num dia de trabalho, mas não faltam evidências de que, sim, nossa relação com o trabalho é permeada por medo e ansiedade.
Uma pesquisa realizada em 2025 pela Vittude com 174 mil profissionais de 35 grandes empresas, em todas as regiões do Brasil, concluiu que 45% trabalhavam em ambientes de baixa segurança psicológica nos quais existe medo de errar, discordar, fazer perguntas ou sofrer consequências ao se manifestar.
E, como era de se esperar, o medo aumenta conforme o gênero. Dados também de 2025 mostram que mulheres são mais propensas a sentir ansiedade e esgotamento. Isso não ocorre porque sejam naturalmente mais frágeis ou mais inseguras, mas porque estão expostas a mais cobranças, injustiças, assédios e violências do que seus colegas homens. Para as mulheres negras, soma-se a tudo isso o racismo que enfrentam dentro e fora do ambiente de trabalho.
A frase, portanto, pode ser inválida como dado concreto, mas o diagnóstico para o qual ela aponta é claro: estamos trabalhando com medo. E isso traz prejuízos tanto no âmbito individual quanto no âmbito coletivo.
Para além de se tornar um problema de saúde pública, a relação de trabalho pautada no medo tem outra consequência: a morte da crítica, a aversão ao risco, ao “fazer diferente”, a dificuldade de inovar.
Como sociedade, no setor público ou privado, nas pequenas empresas e grandes corporações, nas ONGs, nas escolas e universidades, nunca precisamos tanto de gente disposta a questionar o que sempre foi feito.
Precisamos de gente aberta a imaginar soluções que ainda não existem e a encontrar maneiras mais inteligentes, justas e eficientes de fazer as coisas.
Precisamos especialmente de mulheres e grupos tradicionalmente silenciados se sentindo confiantes para expor suas dores e suas ideias.
Afinal, quando são as mulheres que acumulam mais razões para ter medo, perdemos justamente a contribuição de quem enxerga problemas e possibilidades que grupos tradicionalmente no poder nunca seriam capazes de enxergar.
Folha Carreiras
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