Um urubu tocou o sino de uma igreja na Colômbia, depois do terremoto que assombrou este começo de agosto. O que impressiona é o toque ritmado, pausado, como se fosse o coroinha mais meticuloso da paróquia.
Na legenda da notícia há um alerta sobre a imprecisão da imagem, da data exata, do local. Talvez não tenha sido bem assim, disseram. Mas vamos trabalhar com a crença: um urubu tocou o sino de uma igreja na Colômbia. Daqui partiremos.
Há também um cachorro que assiste à missa das cinco, todos os dias, em uma pequena cidade da Paraíba. E um gato que visita o túmulo do dono, semanalmente, em um lugar qualquer da Polônia.
Talvez mais casos de cachorros e gatos com o mesmo hábito existam mundo afora. E assim os animais estão nos contando que sabem mais, muito mais do que parecem saber. Talvez até mais do que nós mesmos, pobres humanos, constantemente aguardando sinais do apocalipse.
Na minha casa tenho quatro felinos: uma idosa sem carisma nem paciência, um monge de paz e sabedoria que fala palavras em português, um transtornado com problemas de ansiedade e um obeso carinhoso e feliz, apesar de apanhar muito do transtornado.
Diante de toda a minha dedicação a eles nesses 16 anos, o mínimo que espero é algum tipo de comunicação que me avise de sinais do apocalipse.
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Estou tomando providências, fazendo minha parte. Tenho plantado muitas árvores. Até agora foram três carnaúbas, uma oliveira, dois limoeiros e um monte de bananeiras. Ganhei um ipê branco, uma pitangueira, um pé de jasmim.
Estou contribuindo para a cura da Terra do jeito que posso. Quero adiar o fim do mundo. Já atraí a vizinhança de três corujas buraqueiras que me olham com amizade.
Mas fiquei pensando se os urubus teriam mais informações que os gatos domésticos. Provavelmente sim, já que têm o privilégio de sobrevoar.
Um dia desses eu encarei um carcará de perto, olhando bem nos olhos. Só fiz isso porque uma tela e uma janela nos separavam. Ele não veio me contar nada, era só vontade de roubar uma bandeja de carne moída descongelando ao sol. O que ele me contaria, se pudesse falar?
Aqui meus felinos, sobretudo a idosa sem carisma, têm mania de olhar para um lugar vazio, miar e interagir. Espíritos, certamente. Quem é que está aí, Florzinha? Ela mia.
Não entendo miados, fico sempre sem saber. Mas se for um espírito avisando do fim do mundo, será que ela vai fazer um esforço para falar a minha língua?
Estamos tão confusos e perdidos, tão em choque com o mundo, que observar os animais talvez seja uma das coisas mais certas que podemos fazer agora.
Na minha modesta opinião, o urubu colombiano só queria mesmo mostrar que sabe tocar um sino, se quiser, assim como o cachorro sabe a hora da missa e o gato sabe o caminho do cemitério.
As notícias irracionais, inexplicáveis e absurdas são um consolo no meio de manchetes tão cruéis. Não sei se o mundo vai se acabar mesmo, se estarei viva para assistir. Só quero que nesse dia eu esteja cercada de bichos, na minha própria Arca de Noé, tocando um sino calmo e manso e fazendo o sinal da cruz.
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