Nas profundezas do oceano, um caranguejo coberto por cerdas faz algo que parece agricultura: cultiva bactérias no próprio corpo e depois as utiliza como alimento. É o caranguejo-yeti, nome dado a crustáceos do gênero Kiwa, encontrados em ambientes extremos onde a luz solar não chega e conseguir comida exige estratégias bastante incomuns.
Como o caranguejo-yeti cultiva seu próprio alimento?
As patas e outras regiões do corpo desses animais possuem numerosas cerdas, chamadas setas, onde comunidades de bactérias conseguem crescer. Algumas dessas bactérias usam compostos químicos disponíveis em fontes hidrotermais ou vazamentos frios no fundo do mar para produzir energia, sem depender diretamente da luz solar.
Um estudo publicado em 2011 na revista PLoS ONE mostrou que a espécie Kiwa puravida obtém grande parte de sua alimentação dessas bactérias. Os pesquisadores observaram que o crustáceo favorece seu crescimento nas cerdas das grandes patas dianteiras e depois consegue removê-las para se alimentar.

Por que ele fica balançando os braços na água?
Uma das cenas mais curiosas observadas pelos cientistas é o movimento repetitivo das patas do Kiwa puravida. O animal parece movimentá-las sobre regiões onde substâncias químicas escapam do fundo oceânico, aumentando a exposição das bactérias aos compostos necessários para seu metabolismo.
- As cerdas do corpo oferecem uma superfície onde grandes comunidades de bactérias conseguem crescer.
- Os movimentos das patas ajudam a colocar esses microrganismos em contato com substâncias presentes na água.
- As bactérias transformam compostos químicos em energia em ambientes onde não existe luz solar.
- O próprio caranguejo pode raspar essas bactérias e aproveitá-las como fonte de alimento.
É justamente esse comportamento que levou os pesquisadores a comparar o processo a uma espécie de cultivo. O caranguejo não planta nada, claro, mas mantém condições favoráveis para que seu alimento cresça no próprio corpo. Para um animal das profundezas, carregar uma “fazenda” consigo pode ser uma enorme vantagem.
Onde vivem esses estranhos caranguejos?
Os caranguejos-yeti são habitantes de ambientes profundos associados a fontes hidrotermais e vazamentos de metano. Essas regiões podem parecer hostis, mas sustentam ecossistemas inteiros graças à quimiossíntese, processo no qual microrganismos obtêm energia de reações químicas em vez de depender da luz do Sol.
Pesquisas com diferentes espécies da família Kiwaidae mostram que essa associação com bactérias não é exclusiva do Kiwa puravida. Outros caranguejos-yeti também carregam microrganismos nas cerdas e podem depender deles como parte importante da alimentação, mostrando como essa parceria se tornou valiosa nas profundezas.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube PLANETA MUNDO mostrando o comportamento do caranguejo-yeri no fundo do oceano.
Por que ele recebeu o nome de caranguejo-yeti?
O apelido surgiu por causa das numerosas cerdas que cobrem partes do corpo e dão ao animal uma aparência peluda, lembrando a criatura lendária conhecida como Yeti. O primeiro representante do grupo chamou tanta atenção que uma nova família de crustáceos, Kiwaidae, precisou ser reconhecida para acomodar esses animais incomuns.
As cerdas, porém, são muito mais do que uma característica visual. Elas oferecem espaço para o crescimento dos microrganismos associados ao crustáceo. Assim, justamente aquilo que faz o caranguejo parecer uma criatura saída de uma história fantástica também está relacionado a uma de suas principais estratégias para conseguir alimento.
O que essa fazenda viva revela sobre o oceano?
O caranguejo-yeti mostra que a vida pode criar soluções surpreendentes quando os recursos são limitados. Em vez de percorrer grandes distâncias procurando alimento, algumas espécies mantêm microrganismos produtores de nutrientes sobre o próprio corpo e vivem em regiões onde a base da cadeia alimentar funciona sem qualquer ajuda direta da luz solar.
Essa pequena fazenda submarina é também um lembrete de quanto ainda existe para descobrir nas profundezas. Vale olhar para esses ecossistemas com atenção, porque cada nova expedição pode revelar relações que parecem impossíveis à primeira vista, mas que ajudam a explicar como a vida consegue prosperar nos lugares mais extremos da Terra.














