Filme mergulha na turnê de reunião do Oasis e na trégua entre os irmãos Gallagher

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Filme mergulha na turnê de reunião do Oasis e na trégua entre os irmãos Gallagher


Desde que o Oasis explodiu, consolidando-se como um dos ícones da cena pop-rock da década de 1990, tão aguardadas quanto as datas de novos shows da banda eram as novas intrigas entre Liam e Noel Gallagher, os líderes do grupo. Se nos álbuns e no palco mostravam uma simbiose invejável, capazes de hits como “Wonderwall” e “Don’t Look Back In Anger“, na vida real os irmãos viviam às turras —a ponto de, em um show em Paris, em 2009, decidirem se separar de uma vez por todas.

Mas, 16 anos depois, no ano passado, os Gallaghers se reuniram em turnê, e os cineastas Dylan Southern e Will Lovelace registraram os concertos e bastidores dos espetáculos. Na semana passada, apresentaram ao mundo o documentário “Oasis: Don’t Look Back In Anger”, no Festival de Veneza, que agora é exibido nos cinemas do Brasil, com sessões nesta quinta (10) e sábado (12).

O filme, é claro, também mostra a relação entre os dois irmãos durante a turnê. Não aparecem muitas vezes unidos, é bem verdade, mas os registros revelam que Liam e Noel deixaram para o passado a hostilidade mútua, bancando agora o estilo “irmãozinhos paz e amor”.

“Foi um grande esforço dos dois”, diz Southern. “Era muito importante que eles fizessem os melhores shows que pudessem. Eles só se encontravam nos lugares em que iam tocar juntos. A reconciliação aconteceu de fato no palco, como se vê no filme. Tornaram-se irmãos novamente em frente a todos nós. E depois isso se consolidou, noite após noite, na turnê.”

O cineasta se refere ao momento exato em que os irmãos entraram no palco do primeiro show, em Cardiff, no País de Gales. Não havia nada preparado, mas, de repente, diante da plateia, Liam pega no punho do irmão, levando os fãs ao delírio. O gesto improvisado evoluiria para um aperto de mãos alçadas ao céu, o que se repetiria em todas as apresentações.

A visceralidade do público diante da banda é fácil de perceber em vários momentos do filme. Seja no choro, no êxtase e nas demonstrações de carinho dos espectadores em shows da banda, mas também na forma hiperbólica como se expressam diante dos ídolos.

“Foi como perder um filho”, diz um dos fãs, sobre como reagiu ao descobrir o fim do grupo. Outro entusiasta encontra uma alegoria religiosa para falar da importância da reunião da banda: “É como se fosse o renascimento de Cristo“.

Uma fã brasileira que dá depoimento no documentário explica a importância da mensagem passada com os anos pelos rapazes vindos de meio operário em Manchester. “Encontrei força na música deles. Se eles venceram, eu vou vencer também”, diz ela. A brasileira explica que, depois de conhecer outros fãs do Oasis no país, encontrou uma verdadeira família.

Os cineastas dizem que existe uma paixão muito peculiar do público brasileiro em relação ao Oasis. “Nós amamos aquele show em São Paulo. Foi o último, havia algo diferente na plateia. Não ficamos muito tempo no Brasil, mas dava para perceber a energia”, diz Southern.

“Talvez seja porque existe certa agressividade na música deles, ou talvez a honestidade e autenticidade do que eles se apresentam. Isso deve ter um apelo especial para o público brasileiro”, afirma o cineasta.

Will Lovelace, o outro diretor, também recorda do espetáculo com carinho. “O show de São Paulo foi bem especial. Logo que eles acabaram de cantar e saíram do palco, a chuva caiu com tudo. Foi muito bonito.”

No documentário, além de uma contextualização da história do Oasis e trechos dos shows do ano passado, há breves falas dos próprios músicos. Noel confessa que não conseguia ver o retorno —não a ideia de estarem juntos novamente, mas achava impossível visualizar mentalmente a imagem da dupla reunida no palco, tantos anos mais tarde.

A certo ponto, arrisca elogiar o irmão. “É a única pessoa que coloca um tamborim na cabeça e consegue fazer isso ser algo cool”. Liam pensa um pouco antes de ressaltar alguma vantagem de Noel, mas logo se lembra: “Tinha me esquecido de como ele era engraçado.”

Mas o que, afinal, fez com que os Gallaghers engolissem a seco as ofensas trocadas do passado, a ponto de resolverem voltar ao palco? Amadurecimento? O dinheiro que ganhariam com o retorno? Saudade dos holofotes?

Segundo Liam, a volta se deu pela necessidade de passar para as pessoas uma mensagem pacifista. “O mundo de hoje está uma droga, as pessoas precisam relaxar.”

Os cineastas juram que nem Liam nem Noel fizeram ressalvas diante do filme, depois de já pronto. “Mostramos aos dois quando terminamos, e as conversas eram sobre o som, questões técnicas, mas não teve intervenção editorial”, diz Lovelace.

Indagados sobre o motivo de o Oasis se manter tão popular, mesmo três décadas após o auge da banda, os diretores dizem que a atemporalidade de sua música é um fator importante.

“Nos shows da turnê, dava para ver três gerações diferentes. Você vê gente que nem tinha nascido quando eles apareceram, mas que estava lá, que encontrou a banda de alguma forma”, diz Southern. “E tem a habilidade deles enquanto compositores: as canções dizem coisas que as pessoas ouvem e aplicam para as suas próprias vidas.”



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