É caminho natural para muitos cineastas se lançarem com curtas-metragens e, depois de alcançar certo prestígio, migrar para os longas. O principal destaque desta edição do festival Kinoforum, porém, decidiu contrariar as expectativas.
Federico Luis venceu prêmios em Cannes com “Simón de la Montaña” e, imediatamente depois, retornou ao formato diminuto, com “Para os Oponentes”. A aposta se pagou e o curta também foi premiado no evento francês, com a Palma de Ouro destinada ao formato.
“Muitos usam o curta para começar a fazer cinema, como um degrau em direção a um longa, mas se você se desprende dessa ideia, vai ver que é um formato puro, em que se pode testar muitas coisas”, diz o cineasta argentino, agora, por telefone.
Experimentar usando esse tipo de produção é uma das propostas do Kinoforum, maior evento de curtas-metragens do país, que chega à sua 37ª edição nesta quinta-feira (20). Até o dia 30 deste mês, serão exibidos 260 títulos –127 nacionais e 133 estrangeiros–, de diferentes gêneros, nunca ultrapassando uma hora de duração.
“Um longa precisa de muito tempo, apoio e dinheiro para ser feito, então às vezes eu sinto que é um fardo grande. É uma produção que se move devagar, e às vezes você quer se relacionar com o espectador de uma forma mais leve e mais rápida”, diz ainda Luis, que embora seja argentino, gravou “Para os Oponentes” no México, após se encantar pela cultura do boxe enraizada no país.
Em seu filme, ele acompanha um menino que, desde muito cedo, é inscrito em campeonatos de boxe pelo pai e o treinador. A câmera é puxada e empurrada conforme seus golpes são desferidos, ao longo de 15 minutos tensos.
O espectador é convidado a torcer também, ao mesmo tempo em que os gritos vindos de fora da arena provocam uma reflexão sobre masculinidade, expectativa, infância e a relação entre pais e filhos.
Para Luis, a ideia veio da percepção de que muitos pais depositam expectativas exageradas nos filhos, na crença de que eles serão excepcionais em algo –e, portanto, poderão ter uma vida melhor por isso.
“É universal, mas no caso do boxe, o que me chamou a atenção, foi o fato de não ser como o futebol, por exemplo, que você joga. É um esporte que você luta. E isso, pela lente da infância, é muito curioso. Mas não queria vilanizar ninguém, porque há amor, carinho, preocupação nos relacionamentos que se estabelecem nesse universo, isso era muito nítido para mim.”
Em “Para os Oponentes”, originalmente “Para los Contrincantes”, o argentino misturou realidade e ficção. O que o espectador vê é, de fato, uma luta de um torneio de boxe infantojuvenil. O protagonista foi encontrado por ele nas ruas de Tepito, bairro na Cidade do México conhecido como incubadora de grandes boxeadores, e aceitou ser gravado.
O final do filme –e, portanto, a decisão da luta– ficou em aberto. Luis descobriu qual seria o desfecho da trama ali mesmo, na hora. Foi difícil se distanciar dos muitos sentimentos que tomaram o ringue, ele conta, já que sua equipe havia se apegado ao pequeno boxeador protagonista, Damián López.
Questionado se prêmios como a sua Palma de Ouro podem quebrar preconceitos em relação ao curta, Luis acredita que o reconhecimento ainda tem impacto limitado. Ele lembra que há problemas sérios de distribuição de filmes no formato, afinal.
“Por outro lado, vivemos tempos em que as pessoas assistem a cada vez mais vídeos fragmentados, curtos, nas redes sociais. Talvez essa seja uma saída para que esses títulos tenham uma vida útil maior.”
Os ingressos para as sessões do Kinoforum, que acontecem na Cinemateca Brasileira, no Cinesesc, no Centro Cultural São Paulo, no Espaço Petrobras de Cinema, no Museu da Imagem e do Som, no Cinusp, no Cinusp Maria Antônia e no circuito itinerante do Cinema na Comunidade, são gratuitos.
Outros destaques da programação incluem “Koki, Tchau”, premiado em Berlim, e “The Blessing” e “Ensino Primário”, que passaram pelo Festival de Locarno. Entre os brasileiros, Leonardo Martinelli exibe “Samba Infinito”, que estreou na Semana da Crítica em Cannes, e Caco Ciocler, Malu Galli, Carol Duarte, Bella Camero, Bárbara Colen e Carlos Francisco aparecem nos títulos “Pique-Pega”, “DIU”, “Brasa”, “Party Princess” e “Barulho”.














