Um avião está cercado por água. O líquido pinta de azul quase todo o horizonte, à exceção de algumas nuvens cinzas acima. O reflexo inverte o céu e a terra, num registro feito por Anselmo Cunha que pode parecer pacífico, mas virou símbolo das enchentes que varreram o Rio Grande do Sul no ano passado.
Em outra foto, torcedores celebram a vitória do time do peito. Brasões do Botafogo saltam de camisas e tatuagens, e abraços calorosos aproximam lágrimas e sorrisos. O estádio é preenchido pelo contato e a agressividade comumente associada às torcidas de futebol é subvertida pelas lentes de André Coelho.
Ambas foram selecionadas para a World Press Photo 2025, que chega à Caixa Cultural de São Paulo nesta terça (5). As fotografias permanecem até o final de setembro e reforçam a iniciativa da mostra, organizada em parceria com a Folha, de transformar discussões urgentes em legados visuais.
“O maior desafio na fotografia é trazer imagens que dialoguem com a individualidade de quem as vê. Em um mundo cada vez mais sobrecarregado de imagens, é preciso procurar cenas que convidem à reflexão sobre o que é mostrado”, diz Cunha, um dos três brasileiros premiados pelo 68º concurso anual do evento.
Ele classifica a aeronave como uma evolução também sujeita às forças da natureza e diz que os ricos não estão a salvo do aquecimento global. A foto dialoga com “As Piores Enchentes do Brasil”, série da brasileira Amanda Perobelli que resume as consequências climáticas ao retratar a cidade de Canoas.
O reflexo surge numa das imagens de forma semelhante e sintetiza, segundo ela, o colapso entre o que deveria nos proteger e o que foi devastado. “Minha ideia é evitar o sensacionalismo, concentrando-me no contexto humano da tragédia”, diz ela. Outras mostram a coletividade entre sobreviventes e voluntários.
“A fotografia não se restringe a mostrar a dor, que é inevitável, mas também destaca gestos de solidariedade, resiliência, resgate e reunião. Torço para que meu trabalho ajude a transformar o trauma em um apelo à empatia.”
São diversas as temáticas que se juntam a esses registros. Os conflitos no Oriente Médio resultam em fotografias como a da palestina Samar Abu Leuf, na qual o Sol ilumina um menino que perdeu os braços.
A guerra na Ucrânia aparece em lentes como as do alemão Florian Bachmeier. Anhelina, 6 anos, afunda em sua colcha de constelações espaciais, abaixo da janela por onde entra a luz fria. Os lençóis estão desarrumados e a criança centraliza o choque entre a inocência e a desumanização.
Entre a perseguição da comunidade LGBTQIA+ na Nigéria, o trabalho precarizado na Indonésia e a expansão de grupos armados no Haiti, a exposição ainda se dedica à denúncia da violência contra a mulher —e, em sua passagem pelo Brasil, integra a campanha “Feminicídio Zero“.
No interior de uma loja, manequins usam vestidos reluzentes e sacolas cobrem suas cabeças. Ainda em “Terra Sem Mulheres”, série da iraniana-canadense Kiana Hayeri, mulheres rezam juntas no interior de uma sala. De costas para as janelas, seus rostos se misturam à escuridão. São formas de expor a opressão do corpo e a invisibilidade feminina que resiste até hoje.
Representante da World Press Photo no Brasil, Flávia Moretti conta que o projeto passou por mudanças para englobar, entre os organizadores, vozes do mundo todo. “Elas permitem um olhar mais atento à diversidade geográfica e à pluralidade, trazendo à tona histórias muitas vezes negligenciadas. Isso fortalece o compromisso com um jornalismo visual mais representativo, inclusivo e relevante.”
Mesmo que a destruição unifique boa parte dos eixos discutidos, sobra espaço para celebrar a união humana. É o caso do esporte, onde cliques virais como o do surfista Gabriel Medina, nas Olímpiadas, e o olhar de André Coelho para o futebol oferecem respiros.
“[‘Torcida do Botafogo: Orgulho e Glória’] mostra desconhecidos compartilhando um amor comum. É importante que a mostra dê espaço a demonstrações de felicidade em meio a tantas tragédias.”

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