Djin Sganzerla não tem, como diretora, nem a força explosiva da mãe, Helena Ignez, nem a força implosiva do pai, Rogério Sganzerla. Sua marca mais evidente é a suavidade, como já indicavam as águas calmas da baía de Guanabara de “Mulher Oceano“, sua primeira direção, de 2020.
Se algo mudou para este “Eclipse” não foi o método, mas o tema. Agora não se trata mais de invadir um oceano em busca de si mesma, mas de transitar de um mundo dourado de alta classe média às profundezas da sordidez do homem.
Tudo começa com o encontro entre Cleo (Djin Sganzerla) e Nalu (Lian Gaia), duas meio-irmãs diferentes em vários aspectos. Ambas, no entanto, manifestam forte ligação com a natureza. Cleo, a loira, é astrônoma, e Nalu tem ascendência indígena por parte de mãe, forte elo com onças e é especialista em computadores.
Na visão de Nalu, Cleo seria a filha princesinha da história; a ela, Nalu, restou uma história de estupros perpetrados regularmente pelo próprio pai. Cleo, grávida, tem uma vida que é difícil imaginar mais plácida com o marido amantíssimo.
Enquanto a relação atritiva com Nalu aos poucos se transforma em amizade, Cleo descobre, nas conversas com a irmã, as iniquidades de que são capazes os homens.
Essa descoberta transformará em definitivo a vida de Cleo (e também ligará as duas irmãs fortemente), pois ela descobre, via WhatsApp, que o marido poderia fazer parte de uma sinistra rede de figuras masculinas que praticam o estupro de jovens.
Desde então, o tom muda. O que era um encontro entre irmãs distantes se transforma em um thriller, enquanto o espectador pode se embrenhar em duas dúvidas até certo ponto cruzadas.
A primeira: será que o devotado marido de Cleo a trai e de maneira especialmente assustadora? Ou será que Nalu arma uma trama para introduzir a dúvida na plácida vida de Cleo apenas para se vingar dos sofrimentos que sofreu no passado?
Passamos do drama familiar a um thriller que não raro lembra “A Sombra de uma Dúvida”, aquele em que Hitchcock criou aquele marido que, quando sobe as escadas levando um copo de leite à sua mulher, não sabemos se está levando um alimento ou um veneno.
É mais ou menos isso: aquele que está ao seu lado seria uma ameaça, ou não? Caso seja, que nível de perigo pode apresentar?
Se, como diretora, Djin desenvolve um caminho independente e demonstra uma sensibilidade diferente tanto da de Rogério como da Helena, o que impressiona neste filme é, ao primeiro olhar, o domínio do gênero de ação policial.
Se o elo com a natureza parece vir de um temperamento (no primeiro filme, a água; neste, a floresta e os astros), a desenvoltura em relação ao thriller demonstra um elo forte com a tradição do cinema.
A inflexão feminista é evidente no thriller, embora menos rica do que a maneira como o filme sabe aproximar as duas irmãs tão diferentes e mesmo opostas em quase tudo.
A bela imagem final da onça (feminilidade forte e ousada) que avança para a água (representação do caráter contemplativo) marca a transformação do que é diferente (branco/indígena, água/terra, astros/informática) em complementar. Djin afirma a originalidade de seu talento.
A música sobre a imagem final me pareceu dispensável.


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