Pneus, portas e painéis pendem do teto. O fusca de Damián Ortega flutua, como um automóvel que deixou a avenida Paulista e veio se despedaçar em uma sala do Masp, em São Paulo. Obra célebre do mexicano, “Cosmic Thing” é o centro gravitacional desta que é a primeira mostra panorâmica dedicada a ele na América do Sul.
Conhecido por esculturas monumentais, que desmontam objetos de diferentes formas, Ortega diz buscar o desconhecido no cotidiano. Daí surgem os espaços entre as peças suspensas, que sugerem as forças invisíveis e as engrenagens sociais que preservam estruturas de poder.
Exemplo disso é o também presente “Controlador del Universo”, em que serras, machados, marretas e outras ferramentas rodeiam um centro vazio. Juntos, os instrumentos desafiam um mesmo ponto no espaço e apontam para direções alternativas.
“Há algo político na capacidade de mudar seu contexto. É necessária a vivência pública e o espectador para que a obra exista politicamente”, afirma o artista, que iniciou a carreira como cartunista nos anos 1980. Na época, suas sátiras à exploração dos proletários imprimiam vermelhos saturados e corpos estilizados sobre jornais diversos.
Com o tempo, desprendeu-se do papel e especializou-se em remodelar itens de paisagens urbanas, como foices de fazendeiros e produtos como garrafas de Coca-Cola —uma parede da mostra aglomera variações delas, e Ortega descasca, perfura, alonga e refaz o símbolo pop. Para ele, não há matéria que escape das possibilidades artísticas.
“O resultado dos meus quadrinhos já era físico, impresso em algo que as pessoas carregavam. A escultura estabelece relação com a verdade. Não se trata de falar sobre um assunto, mas de apresentar o fato.”
Menos interessada numa realidade objetiva do que naquela escondida por trás das aparências, a exposição “Matéria e Energia” reúne desde feitos grandiosos de Ortega, como as dezenas de pedras que se expandem em um salão e simulam o núcleo terrestre, até trabalhos minimalistas, caso da lâmpada em que uma vela de cera substitui o filamento elétrico.
Ainda sobra espaço para exercícios em vídeo, como os que complementam o fusca decomposto. No primeiro, cordas tiram da terra um fusca virado de cabeça para baixo. O tremular da lataria se assemelha ao de um inseto amedrontado, subordinado a testes científicos.
Noutra performance, pessoas travam uma disputa de cabo de guerra com o veículo. Para Yudi Rafael, um dos curadores da exposição, os experimentos vêm do desejo de antropomorfizar o inanimado. “Ortega cria a chance de vermos outras coisas a partir do concreto. Ele permite que uma mangueira seja uma cobra [em ‘Serpiente’, um tubo se enrola ao redor de si], e que uma picareta se torne um réptil cansado.”
O pesquisador compara esse processo a investigações anatômicas. É como se o mexicano estudasse a natureza dos objetos, separando componentes, identificando limites físicos e catalogando propriedades biológicas. “As ferramentas recorrentes nos projetos dele, por exemplo, atentam para a forte presença delas na história da humanidade”, diz Rafael.
“Ele o faz para revelar outra face da ideia de trabalho —o trabalho lúdico, por vezes tido como improdutivo.” Afinal, muitas das obras disponíveis subvertem ícones laborais, como a bateria automotiva que se desfaz em pintura, a mão cujos dedos se confundem com lâminas e tesouras e a estátua erguida por tortilhas.
Junto de uma espiga de milho, que tensiona o alimento perecível e a permanência das artes plásticas, a última recupera raízes de povos pré-colombianos. Mesmo que a agricultura e a produção rural possam resgatar hierarquias ultrapassadas, aqui elas se tornam a base de esculturas modernas.
“É um privilégio poder revisitar a história. Embora ela tenha sido profundamente influenciada por colonizadores e pelo mercado internacional, há muito a se extrair de uma trajetória prévia, dos povos originários”, diz Ortega, que continua o ciclo do Masp dedicado a expoentes latinos.
“No México, existe o costume de se migrar para o Norte. Me sinto honrado de poder firmar uma ponte de comunicação a partir do Sul.”
Em meados da década de 1990, aliás, o mexicano trocou a formação tradicional pelo Taller de los Viernes, ou oficina das sextas-feiras. Com nomes como Gabriel Orozco e Abraham Cruzvillegas, o grupo evitou sintetizar ideais num manifesto e priorizou a experimentação livre, atenta a objetos mundanos.
Anos depois, Ortega se viu à frente do Alias Editorial, selo que traduz textos artísticos de grande influência, antes restritos à erudição acadêmica e às suas línguas de origem.
Heranças dessas iniciativas são evidentes em produções de Ortega que envolvem tijolos. Seja em fotos de bairros periféricos, seja em filmagens de instalações, eles aparecem amontoados, enfileirados e em disposições variadas, que exploram a potência de um material que gera novas construções.
Já em outra coleção fotográfica, Ortega vê rastros deixados em gramados, carpetes gastos e assoalhos de madeira, entre outras superfícies. São pegadas e demais vestígios humanos, imperfeitos, que questionam a arquitetura calculada de espaços como a cidade de Brasília e apartamentos luxuosos.
Outra obra célebre é “Harvest”, que agrupa ferros retorcidos que, uma vez iluminados, inscrevem letras cursivas e mensagens escondidas sobre o chão. Nesse encontro entre signos cotidianos e jogos de luzes e sombras, surgem ainda contornos difíceis de se descrever.
É ainda o caso de “Monster”, aglomerado de blocos de concreto, pedregulhos de dimensões variadas e restos de tijolos. Contrários às peças flutuantes do fusca que aparenta ter sofrido uma explosão, os materiais se apertam uns contra os outros e tentam dar forma ao impossível.
“Hoje, hábitos digitais impõem uma postura passiva, oposta à experiência tridimensional”, afirma o artista. “É a imaginação que rompe essa barreira. Ela leva dúvidas ao público, que podem levá-lo a suas próprias obras. Esses materiais indicam que a arte também está nas mãos do espectador.”











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