Opinião – Socorro Acioli: Com Djavan entendi o que canta o bem-te-vi

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Opinião – Socorro Acioli: Com Djavan entendi o que canta o bem-te-vi


Há tempos eu queria ver “O Céu da Língua”, do Gregorio Duvivier, que tanta gente boa elogia. Minha expectativa era passar uma hora e meia dentro da cabeça dele, tentando acompanhar uma linha de raciocínio caótica, de palavra em palavra, um caos relativamente ordenado.

Enquanto acontece, a gente ri tanto que não percebe a revisão de uma vida inteira tendo o português brasileiro como centro da existência. Por exemplo, estou aqui pensando, graças ao texto do Gregorio, que o bem-te-vi diz outras coisas em outras línguas.

Quanta ingenuidade a minha em achar que o meu passarinho favorito fala a minha língua. Ele não está nem aí para as palavras de ninguém. Cantar é muito melhor que falar.

Criada com música brasileira da melhor qualidade em casa, pedi um violão de presente no meu aniversário de nove anos. Arranjaram um Tonante de segunda mão, com cordas de aço que rasgaram as pontas dos meus dedos no esforço de tocar “Preta, Pretinha”, dos Novos Baianos.

Levei muitos anos para saber que “Só, só, somente só” era o apelido de uma moça de Niterói chamada Socorro, que foi noiva do Luiz Galvão. Quem me contou foi a Alexandra Lucas Coelho, uma portuguesa, vejam só.

Enfim uma Socorro exaltada no mundo romântico. Fora isso, só sobrava “Help”, dos Beatles, e “Socorro”, do Arnaldo Antunes, um improviso inadequado e entristecedor. Ser nome próprio e interjeição dificulta a vida, depois acostuma. Hoje eu nem ligo. Tenho a música da barca, da Só, mesmo nunca achando chaveiro com meu nome nas lojinhas para turistas.

Aprendi a tocar muitas músicas, estudei partitura, o braço inteiro do violão, criei calos nas pontas dos dedos, mas desisti de cantar. E assumi a posição feliz de uma boa ouvinte de música brasileira. Foi pra isso que serviram as feridas dos dedos, pra entender um pouco melhor as composições.

Minha geração tinha o hábito de ouvir a mesma fita e o mesmo disco muitas e muitas vezes. Naquele tempo, aprendíamos a conhecer as fases dos artistas em detalhes, a ordem das canções, o começo de uma música dando sentido ao final da que veio antes.

Aprendi português de verdade com a música brasileira. A presença multidimensional das palavras, aprendi com Djavan. Sempre fiquei intrigada com essa ideia difundida de que ele é um letrista difícil de entender. De jeito nenhum. Ele é, na verdade, um conhecedor das múltiplas faces que cada palavra pode oferecer, de acordo com as palavras que estão perto dela.

Foi por todos esses motivos que me pareceu um delírio ver o Djavan entrar com sua família para assistir a “O Céu da Língua“, na mesma sessão que eu. Foi aplaudido. Foi reverenciado pelo Gregorio, que inseriu de improviso seus versos no texto da peça e dedicou a noite a ele. A cabeça de um artista que tem mais de 50 anos de trajetória beira o milagre, um artefato brasileiro de alto valor e raríssima capacidade.

Criar é da ordem da alma, o cérebro não faria nada sozinho sem a capacidade ampla e plena de entender que os medos de um deserto —solidão, silêncio e morte— são tão assustadores quanto a dor de perder quem se ama. Longe do amor tudo para. Perto dele, tudo cresce até romper.

Estou escrevendo um novo romance ouvindo Djavan sem parar. O protagonista desse livro tem a percepção de um mundo diante do fim, escuta som de assombração. Penso no Djavan todos os dias, sou louca por tudo o que ele criou.

Terminou a peça e a Regina Casé me levou ao camarim, mas eu não conseguia falar nada, só dei um abraço nele. Eu poderia ter dito isto tudo e não pude. Só abracei o Djavan.

Parece que estou narrando um sonho louco, mas a porta do camarim estava aberta, entrou um bem-te-vi e disse: o que eu falo é açaí, senhores, vocês que escutam errado.


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