Uma turma intercontinental está numa estrada da África Ocidental. O clima é de alegria. Ouvimos uma música brasileira, clássico do underground setentista: “O Riso e a Faca”, de Tom Zé. Assim é explicado o título do novo filme do realizador português Pedro Pinho, que agora estreia no circuito comercial paulistano.
A canção é belíssima, da melhor fase do compositor baiano. O que ela nos informa a respeito do filme? Nada, aparentemente, embora se possa fazer associação com algo do enredo. Precisava informar alguma coisa? Não, na verdade. A música pode funcionar como um respiro.
No entanto, a força e a limitação do cinema desse realizador vêm dessa liberdade de colocar o que lhe vem na telha, cabendo ou não na estrutura rudemente pensada, às vezes por reflexo da grande quantidade de roteiristas.
Quando cabe, há momentos de incrível força, graças também a um elenco afiado e muito bem escolhido. Quando não cabe, a sensação de desperdício é inevitável. O espectador pode decidir em qual deles se encontra o momento em que os jovens cantam junto com Tom Zé. Por um lado, a musicalidade segura. Por outro, é poesia demasiadamente calculada.
No filme, acompanhamos principalmente um português, Sérgio, vivido por Sérgio Coragem. Ele viaja para Bissau, capital da Guiné-Bissau, com a missão de fazer um relatório para a construção de uma estrada. Chegando lá, envolve-se também com moradores locais.
É um personagem perdido em outro mundo, não só geográfico, mas principalmente de costumes. O mundo da década de 2020. O melhor do filme é Guilherme, papel de Jonathan Guilherme, o brasileiro que logo coloca Sérgio contra a parede nas questões sexual, colonial e racial.
Sérgio fica perdido quase o tempo todo. É um colonizador ciente de sua falta de carisma. O filme cresce sempre que Guilherme está em cena. E Diára, personagem de Cleo Diára, a trambiqueira que tem todo o carisma que falta em Sérgio. Numa discussão na segunda metade, Diára dá um banho de argumentação em Sérgio, mesmo que, moralmente, seja ele o correto.
Cleo Diára e Sérgio Coragem atuaram, em papéis menores que aqui, no longa português “Verão Danado”, de Pedro Cabeleira, lançado em 2017. Curiosamente, os piores momentos de “O Riso e a Faca” são meio parecidos com “Verão Danado”. Ambos exploram a câmera na mão com alguma frequência, dentro de um enquadramento no formato scope, na fluidez horizontal, com um espaço parcialmente desfocado.
Nos momentos mais festivos ou sexuais, a câmera quase se perde nos rostos e corpos, os cortes surgem apressados, como se houvesse algum medo de prosseguir. O olhar fica fugidio, perdido como o protagonista.
Felizmente, Pinho tem mais recursos, sua câmera, na maior parte do tempo, é mais bem pensada. Seu filme tem mais variações, mudanças de tom e humor. Por isso suas três horas e meia são muito mais fáceis de ver do que as duas horas do filme de Cabeleira.
Isto acontece sobretudo porque desde o começo se estabelece o estilo e se introduz a liberdade com que irá trabalhar. Uma vez que aceitamos essa liberdade, o filme flui, seus acertos compensam as falhas e os buracos são preenchidos com momentos de boa inspiração. Outra maneira de dizer que é um mastodonte irregular, embora talentoso.
Uma parte de “O Riso e a Faca”, aliás, tem um lado documental forte. O olhar interessado nos costumes e rituais da região oferece um escape à perdição de Sérgio, deixando-o como mais uma peça na engrenagem do filme, que insinua entender a limitação do protagonista, diminuindo-o.
Pedro Pinho parece ter uma dificuldade com a síntese. Seu longa anterior, o celebrado “Fábrica de Nada”, de 2017, tem três horas de duração. Ali sente-se o excesso, um exagero de cenas forçadas, uma inflação de um tipo de humor que nem sempre encontrava na graça o destino final.
Por outro lado, “Um Fim do Mundo”, de 2013, o primeiro longa que assinou sozinho e até hoje seu melhor trabalho, tem praticamente uma hora. Neste filme em preto e branco, encantado com a juventude, já havia um gosto pela música brasileira: uma música das Mercenárias está na trilha sonora.
Seus dois outros longas têm duração comum e codiretores. O primeiro é “Bab Sebta”, de 2008, codirigido por Frederico Lobo. O outro é “A Cidade e as Trocas”, de 2014, realizado com Luisa Homem, que depois faria o belo “Suzanne Daveau”, de 2019, já lançado no Brasil.
O próximo filme de Pinho provavelmente dirá se “O Riso e a Faca” é a coroação de um projeto autoral ou apenas mais um tijolo na construção de uma obra de maior amplitude estética.

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