Vistas em conjunto, as pessoas, quaisquer pessoas, nada revelam: ninguém ama ou odeia uma multidão. De multidão se pode ter no máximo medo ou, na ponta oposta, se pode sentir aquela igualdade irracional instantânea que as religiões e as torcidas reencenam.
Mas assim que pessoas são observadas isoladamente, tudo muda: é em cada indivíduo que se dá a ver a complexidade humana, a intensidade da vida, a singularidade da experiência.
É uma equação geral que a boa narrativa conhece, sob pena de perder-se na irrelevância cotidiana, feita de massas de gente anódina. Exemplos altos, de boa realização dessa equação, estão em toda parte, e nos nossos dias encontram realização de nível superior também em retratos de gente pobre de periferia.
Ponhamos uns nomes na mesa: Lilia Guerra em São Paulo, Geovani Martins no Rio, José Falero em Porto Alegre, Paulliny Tort em Goiás. Não se trata mais de uma ou outra exceção, mas de uma verdadeira tendência, marcante como não antes na literatura produzida no Brasil.
São vozes novas e competentes, que têm encontrado leitores também inéditos, forjados na revolução silenciosa desta geração, uma mudança nascida nas lutas por direitos e amadurecidas na escola e na universidade depois das cotas sociais e étnicas.
O novo livro de contos de Marcelo Moutinho, “Gentinha”, de ótima qualidade, em parte pode ser associado a essa linhagem —quem usa a palavra “gentinha” aponta o dedo, aristocrático, burguês ou pequeno-burguês, para os de baixo.
Não é, porém, exatamente disso que se trata, porque a maioria dos personagens é de classe popular sem viver exatamente na ponta extrema da pobreza: são homens, mulheres, crianças, jovens de classe popular, baixa e média baixa, não de favela mas de subúrbio, se é que a distinção fica clara.
Nessa matéria-prima humana há um valor importante a celebrar, olhando para o livro de Moutinho como parte desse auspicioso momento da produção literária no país.
Ao lado de narrativas ligadas ao mundo das classes confortáveis, tomadas como tema há muitas gerações, e da recente onda de histórias dedicadas ao mundo dos periféricos, o universo social e emocional abordado nas histórias de Moutinho pode parecer secundário, irrelevante até —ou mesmo pouco narrável, dada a estreiteza de horizonte disponível.
Justamente aqui está um bom mérito do autor: “Gentinha” dá a ver histórias dessa gente, em tramas de amor, de desamor, de truculência, de esperteza, de trabalho, de lazer, sempre bem estruturadas e com o foco preciso na dimensão breve e concentrada do conto.
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Não há excessos de linguagem em busca de decalcar a fala no escrito, nem piedade ou condescendência, dimensões sempre à espreita quando se trata de gente simples, nem fantasia de emancipação social. Entramos em contato com histórias bem apanhadas, narradas com segurança, em diferentes angulações que mantêm o fio realista tenso e alinhado.

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