Crítica: ‘Cor de Defunto’ narra mulher em luto sem sentimentalismos

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Crítica: ‘Cor de Defunto’ narra mulher em luto sem sentimentalismos


Desde finais do século 20, a massiva presença de escritoras na cena literária mundial vem colocando em foco as tensões e consequências entre a imposição de modelos familiares patriarcais e a solidão das personagens femininas nesse contexto.

Autoras como Pilar Quintana, Elena Ferrante ou Han Kang escrutinam momentos limites, como o desejo de tornar-se mãe ou a violência física e psicológica nos casamentos, resultando em obras cujas personagens se insurgem contra as trajetórias reservadas às mulheres.

Em comum, as escritoras contemporâneas parecem entender o caráter traumático das heranças familiares, do qual meninas e mulheres não saem ilesas.

É nesse quadro que se inscreve “Cor de Defunto”, romance de estreia da fortalezense Cami di Malta. A narradora-protagonista Lilá compartilha com o leitor as experiências de uma infância marcada pela precariedade material, pelo medo constante de um pai violento e pelo luto em que se encontra presa desde a morte da mãe.

A narrativa, no entanto, não apela para o sentimentalismo ou o exagero. Pelo contrário, a prosa de Malta prima pela contenção em momentos que poderiam ser excessivos e se vale de uma linguagem ágil, inventiva, pincelada por um humor mórbido e elementos, escapando da armadilha de discursos vitimistas.

As memórias de Lilá criança se intercalam com o presente, quando a protagonista mora sozinha e trabalha em uma agência funerária como vendedora de caixões e, posteriormente, no setor de embalsamamento.

Nesse arco, o luto deixa de ser um processo doloroso, mas necessário, de distanciamento da mãe e se torna um lugar, um limbo, do qual a personagem não pode, ou não quer, sair. “Me sinto mais perto de Mainha, sinto falta de quando ela era meu defunto-em-vida. Morta, mas nem tanto, viva, mas nem tanto”.

Essa ambiência limítrofe entre vida e morte espalha-se pelas recordações de Lilá envoltas em constante terror pelas ameaças do pai, nomeado como “Ele”, ou pela angústia frente ao adoecimento da mãe, de quem se torna única cuidadora. Deixar partir a mãe significaria também abrir mão dessa condição constituinte, única realidade conhecida pela personagem.

Em seu caráter elíptico, fragmentário, a escrita de Malta traduz a incompletude gerada pela perda e também a impossibilidade de escapar das memórias constituintes do indivíduo. A família como afeto e trauma.

“Enlouquecer é isso? Ouvi tanto se comporte que agora não sei me comportar. O se comporte com os olhos, ameaçando com o cinturão marrom de couro na volta pra casa. Seja quem eu quero que você seja, jamais você”.

“Cor de Defunto”, no entanto, apresenta desigualdades. Se há um domínio na construção da voz da narradora, em alguns momentos falta fôlego a uma narrativa que visa abordar a complexidade da triangulação família, luto, memória, um tema constante na história da literatura.

Porém, o maior incômodo está no encaminhamento final, sendo desencadeado pela visita a uma cartomante. Não há como não lembrar de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, e, se o jogo intertextual é um recurso pertinente, muitas vezes, na economia interna da narrativa ele funciona como um anti-clímax.



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