Prefeito, presidente nacional do PSB e pré-candidato ao governo de Pernambuco, ele vê a teoria da sobrecarga virar prática nas ruas do Recife.
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O prefeito do Recife, João Campos, enfrenta agora uma encruzilhada que mistura cálculo político com os desafios práticos da gestão pública. De um lado, a vontade de se viabilizar como candidato ao governo de Pernambuco. De outro, a obrigação de manter a cidade funcionando minimamente bem.
A metáfora do cobertor curto talvez nunca tenha sido tão adequada: ao cobrir a cabeça, descobre o pé; ao cobrir o pé, descobre a cabeça.
E, para quem sonha com um salto maior na carreira, ficar encolhido para caber na coberta não é opção possível.
Recife parado
O problema é que, enquanto Campos se movimenta em agendas pelo interior, como aconteceu no fim de semana, ou em Brasília, o Recife dá sinais de problemas. O trânsito vai se tornando um símbolo desse descontrole, com semáforos quebrados, motos nas ciclovias e ausência de agentes da CTTU.
A população percebe desorganização, ausência de fiscalização e caos crescente. Ao mesmo tempo, aparecem queixas sobre o recolhimento de lixo e a conservação de praças e parques, que são vitrine da gestão.
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Obras e “abandono”
A sensação de paralisia não se limita à zeladoria. Obras estão paradas em diferentes pontos da capital, reforçando a impressão de descaso. Quando a população busca respostas, o prefeito aparece mais em compromissos de pré-campanha ao governo estadual ou em negociações nacionais do PSB do que na condução da administração municipal.
No último fim de semana, por exemplo, Campos circulou pelo Agreste, participou de cavalgada, posou para fotos ao lado de possíveis candidatos ao Senado. E o cidadão recifense percebe isso.
Essa percepção de ausência cobra um preço alto, porque transfere para o eleitorado a ideia de que o Recife foi colocado em segundo plano.
Conflito de agendas
João Campos acumula funções difíceis de conciliar: prefeito de uma cidade complexa, presidente nacional de um partido e pré-candidato a governador. O dia continua tendo 24 horas, e a equação parece impossível de resolver.
As críticas já eram previsíveis, e foram apontadas aqui nesta coluna, desde a campanha à reeleição, quando se falava da sobrecarga como risco real. Ainda em 2024, alertávamos sobre o desafio de estar em todos os lugares ao mesmo tempo e de como isso não seria fácil.
Só é possível oferecer seus préstimos como jardineiro para a vizinhança se você estiver cuidando bem do seu próprio jardim, de sua vitrine. Na época, estávamos na hipótese, na teoria.
Com os problemas se acumulando nas ruas, a teoria virou prática e o prefeito precisa lidar com as consequências, mostrando-se mais presente na cidade enquanto for prefeito.
Custos políticos
E mesmo após a saída da prefeitura em abril, para disputar o governo, a cobrança persistirá. Cada problema urbano será lembrado como herança de uma gestão que “deixou a cidade em segundo plano” e a “abandonou” antes da hora. A política não perdoa lapsos de atenção, sobretudo quando os reflexos atingem o cotidiano da população.
O Recife, por ter problemas imensos que não foram resolvidos ao longo de todos os anos em que foi governado pelo PSB, exige dedicação integral. Mas o projeto político de Campos o leva para outros palcos.
O cobertor é curto demais. Resta saber se o eleitorado recifense aceitará pagar essa conta em nome da escalada política alheia.
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