Shakira, de volta ao Brasil para megashow, correu por fora da atual onda latina no pop

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Shakira, de volta ao Brasil para megashow, correu por fora da atual onda latina no pop


Em 1997, Shakira tinha só 20 anos quando se apresentou na Festa do Peão de Barretos, tradicional rodeio brasileiro, realizado anualmente no interior de São Paulo. Ela já havia lançado três álbuns, sendo que “Pies Descalzos”, de 1996, já havia rendido alguns hits à cantora, caso de “Estoy Aquí”.

Mas a cantora colombiana não estava entre as principais atrações do evento. O ingresso para vê-la custava R$ 10 —algo perto de R$ 80 em valores atuais—, menos que os R$ 15 para assistir ao pagode do Só Pra Contrariar, ao axé de Banda Eva e Netinho, ao rock do Skank ou ao sertanejo dos Amigos, com Chitãozinho & Xororó, Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano.

Quase três décadas depois, a maior representante do pop latino volta ao Brasil para o que deve ser o maior show de sua carreira, marcado para este sábado (2), de graça, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

A transmissão do show acontece a partir das 21h20 no canal a cabo Multishow e no serviço de streaming Globoplay. A plataforma será aberta para não assinantes. Na TV Globo, a apresentação será exibida após a novela “Três Graças”.

Shakira foi de sensação adolescente na Colômbia a estrela de alcance global com uma inconfundível voz grave e anasalada, uma coleção invejável de hits, além de uma habilidade incomum para mexer os quadris e fazer a dança do ventre. E conseguiu isso realizando a fantasia de qualquer ídolo pop da Argentina ao Caribe —o sucesso nos Estados Unidos, utopia para Anitta, realidade para Bad Bunny.

Curiosamente, é possível que Shakira não supere os números e a comoção gerada pelas duas americanas que foram atrações do evento que agora ela encabeça, o Todo Mundo no Rio. Madonna, há dois anos, levou 1,6 milhão de pessoas às areias de Copacabana e Lady Gaga, no ano passado, reuniu mais de 2 milhões, segundo dados oficiais da prefeitura da capital fluminense. A previsão oficial é de que o público se repita, mas as projeções do setor hoteleiro local, por exemplo, indicam que a ocupação será inferior à de 2025.

Isso porque, além de se tratarem de duas das mais famosas cantoras pop de todos os tempos, as americanas não vinham ao Brasil havia anos. Gaga só tinha passado pelo país uma vez, em 2012, mesmo ano da então última vinda de Madonna, que tocou no país também em 1993 e em 2008. Shakira, por sua vez, já trouxe sua atual turnê a São Paulo e Rio há um ano.

Mesmo que Shakira não alcance os números, seu show terá um sabor diferente. A presença da colombiana no Rio, onde desembarcou na quarta, promove uma reunião latina maior do que Bad Bunny fez neste ano ao lotar duas vezes o estádio Allianz Parque, em São Paulo —com um espetáculo declaradamente voltado à união dos povos latinos.

Um indício disso é a procura de passagens aéreas por estrangeiros. Nesta semana, o número de reservas de bilhetes para turistas internacionais já era 60% maior do que as feitas para Madonna, e quase igual às feitas para Lady Gaga. Os argentinos lideram os números, seguidos por americanos, uruguaios, chilenos e colombianos.

A latinidade celebrada por Shakira também é esteticamente diferente da propalada onda puxada na última década pelo reggaeton —estilo defendido por Bad Bunny, J Balvin e Maluma, explorado por Anitta, e o mesmo do megahit “Despacito”, de Luis Fonsi. A cantora colombiana, que começou a cantar quando ainda era adolescente, já fazia sucesso nos Estados Unidos em 2004, quando a música “Gasolina” levou ao grande público o ritmo baseado em rimas do rap e na batida dembow, gestado no Caribe nos anos 1990.

Shakira vem de antes, e o paradigma latino de sucesso nos Estados Unidos —e também no Brasil— era o ex-Menudo Ricky Martin. “Pies Descalzos”, primeiro álbum da cantora lançado fora da Colômbia, em 1996, traz a artista explorando baladas no estilo pop rock de violões, como uma espécie de Alanis Morissette latina.

É a mesma sonoridade de “¿Dónde Están los Ladrones?”, de 1998, que emplacou músicas como “Ciega, Sordomuda”, “Inevitable” e “Ojos Así”, e rendeu um adequado volume do “Unplugged”, o acústico da MTV americana, no ano 2000. Foi nessa época que Shakira escolheu o Brasil como um mercado que deveria ser explorado.

A cantora participou de diversos programas de TV, na Globo e no SBT, e fez mais de 30 apresentações, algumas em praças pouco consideradas por artistas internacionais, como Uberlândia, no triângulo mineiro, Bagé, no Rio Grande do Sul, e Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Uma reportagem de 1997 mostrou como Shakira se esforçava para estourar no Brasil.

Ela comentou sobre a dificuldade do pop latino entrar em mercados como o brasileiro, o americano e o europeu. Também falou que seu estilo não se limitava ao pop nem à música tradicional da Colômbia, caso da salsa.

“Não sou apenas uma cantora de dance music, como o público brasileiro está pensando. Meu trabalho mistura rock, reggae e música romântica. No show, toco gaita e guitarra. Não sou nenhum Joe Sartriani, mas estou aprendendo”, a cantora afirmou.

Não é à toa que ela afirmou em entrevista recente ao Fantástico, da Globo, que aprendeu a falar em português antes do inglês. Ela, aliás, usa o idioma falado no Brasil para se comunicar com o público em seus shows por aqui, o que tem tudo para aproximá-la ainda mais da multidão em Copacabana.

O sucesso nos Estados Unidos veio somente no início dos anos 2000, com um álbum com músicas em inglês, “Laundry Service”. Puxado pelo hit “Whenever, Wherever”, ela irritou os críticos, que tiravam sarro de suas composições em inglês, mas vendeu o suficiente para se estabelecer na indústria pop do país mais rico do mundo.

Dali em diante Shakira só cresceu, emplacando sucessos nas paradas americanas ao ponto de integrar a elite do pop dos anos 2000, ao nível de uma Beyoncé ou uma Rihanna. Deu voz à música de Copa de Mundo mais famosa de todas, “Waka Waka (This Time for Africa)”, feita para o mundial disputado na África do Sul, em 2010, e colecionou prêmios e turnês internacionais.

Isso também fez ela vir menos ao Brasil. Com exceção dos shows no ano passado e da performance na final da Copa do Mundo de 2014, no Maracanã, ela só se apresentou no país outras duas vezes —em 2011, com turnê que passou pelo Rock in Rio, e em 2018.

Hoje uma estrela global, ela não vem apenas como um vulto do passado glorioso. Após um divórcio público e conturbado com o ex-jogador de futebol Gerard Piqué, Shakira emplacou o hit “Bzrp Music Sessions, Vol. 53/66” no elogiado álbum “Las Mujeres Ya No Lloran”, que a aproximou do discurso feminista.

Ao longo dos anos, seu pop ficou ainda mais multifacetado, absorvendo novos estilos, entre eles o funk de “Choka Choka”, parceria recente com Anitta, e o próprio reggaeton. Mas Shakira, com uma trajetória única na indústria pop, não surfou na atual onda latina —ela fez a sua própria, que navega pelos oceanos mundo afora desde antes, e segue em paralelo, ao boom reggaetonero da última década.

Se os shows de Lady Gaga e Madonna tiveram uma aura de celebração da comunidade LGBTQIA+, Shakira deve manter o apelo com esse público e ainda acrescentar outro —o feminino. Transformada em uma estátua de 6,5 metros de altura em sua cidade natal, Barranquilla, ela vem discursando como uma representante da força e da sensualidade da mulher latina, aspectos que deve explorar no palco. Seus quadris não mentem.



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