Frejat canta sobre o arranjo minimalista e delicado que valoriza a melodia e a letra de “Todo amor que houver nessa vida”. A certa altura, Cazuza surge no telão para um dueto —um fragmento do show “O tempo não para”, com o calor de registro amador. Ao fim, Cazuza deseja: “todo amor que houver nessa vida pra vocês”.
Foi talvez o momento mais bonito da noite desta quinta-feira (30), estreia da turnê “Barão Vermelho Encontro”, na Farmasi Arena, no Rio. Uma noite que teve ainda a participação de Ney Matogrosso, saudado efusivamente pela plateia.
A noite começou antes da entrada da banda. Ayrton Senna, Nelson Mandela, Tancredo Neves, Rock in Rio —e o vigor único de juventude dos garotos do Barão naquela apresentação de 1985. Imagens como essa ocuparam toda a extensão do fundo do palco nos primeiros segundos do show, transportando para um instante em que parecia estarmos (“meu bem”) por um triz pro dia nascer feliz. Cenas como o atentado de 11 de setembro, que vêm na sequência, não contradizem a sensação daquele momento – pelo contrário, a reforçam.
Fica evidente ali —antes de qualquer riff o mesmo do som das baquetas contando 1-2-3-4 pro ataque da banda— que a reunião do Barão Vermelho em sua formação original é a celebração de uma história. Uma sequência de instantâneos, fotografados em formato de rock, em que se esteve, em que se está, por um triz – that’s what rock’n’roll is all about, como cantou Caetano Veloso em “Transa”.
A celebração, portanto, aparece ali acima da ideia de “atualizar” clássicos ou de propor um “olhar contemporâneo” sobre a obra de Barão. Temperados por boas ideias novas, os arranjos se referenciam quase sempre nos originais, apoiados na compreensão de que nada pode ser mais contemporâneo, afinal, do que músicos com décadas de vida e de carreira, tocando hoje – com pressão e experiência, como que tocando o tempo – músicas que os trouxeram até aqui.
Tudo isso se revela no momento em que Frejat, Maurício Barros, Guto Goffi e Dé Palmeira —que ao lado de Cazuza integravam a formação original do Barão— abrem o show com “Maior abandonado”. Apenas os quatro, no formato que se repete noutros momentos do show.
A cenografia valoriza esse núcleo original. Cada um dos quatro telões que ocupa toda a extensão do palco é dedicado a um deles, como que afirmando que —a despeito da grandiosidade do show moldado para arenas— o que interessa ali é o encontro e tudo que ele carrega em si. Uma solução simples e direta. A divisão só é rompida em momentos específicos, como nos solos de Frejat, quando sua imagem unifica as telas.
O repertório da primeira parte do show dá conta do impacto da chegada da banda no cenário nacional (“Beth balanço”) e de seu reerguimento e consolidação após a saída de Cazuza (“Pense dance”, “Longe demais de tudo”). Nessa reta inicial, o quarteto já conta com o reforço que os acompanha em boa parte da apresentação: Fernando Magalhães (guitarrista que integrou o Barão a partir de 1985), Rafael Frejat (guitarra e teclado), Cesinha (percussão) Jhusara (backing vocal), Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete) e Zé Carlos Bigorna (saxofone).
A plateia, predominantemente vestida de preto, era formada por homens e mulheres que devem ter experimentado a sensação de esperar com a fita cassete engatilhada para gravar no rádio muitas daquelas canções.
“O tempo não para”, do repertório de Cazuza solo, prepara a entrada no palco de Ney Matogrosso. Em sua participação, o cantor passeou pela fase solo do poeta, com canções como “Blues da piedade” e “Exagerado”, além de “Poema”, parceria de Cazuza e Frejat lançada por Ney, e “Jardins da Babilônia”, de Rita Lee. Apesar de um tropeço em “Ideologia”, Ney mostrou a força de costume e sua presença foi um dos pontos altos do show.
O roteiro dá conta das muitas fases do Barão, do mergulho no eletrônico em “Puro êxtase” às releituras feitas no disco “Álbum” — como “Vem quente que eu estou fervendo”, “Amor meu grande amor” e “Malandragem dá um tempo”, cantada por Mauricio Barros.
As marcas do tempo na trajetória da banda são ressaltadas em “Meus bons amigos”, quando são projetadas fotos da banda com amigos que não estão mais aqui, como Mauro Santa Cecília e Serginho Trombone. Noutro momento, Guto Goffi dedica a noite a três deles fundamentais na história da banda: Cazuza, o percussionista Peninha e o produtor Ezequiel Neves. Morto recentemente, José Frejat, pai do vocalista e guitarrista, também foi homenageado.
No bis, “Bilhetinho azul” em formato acústico e cru, apenas com os quatro integrantes, simboliza uma volta à essência. Logo depois, Cazuza é reintegrado na declaração de amor “O poeta está vivo”. Uma confirmação da forte presença de Cazuza no roteiro do show
Por fim, Ney retornou ao palco para a ode ao exagero rock “Por que a gente é assim?” – “antes que a terra nos coma”, diz o verso. E para afirmar o brado que pairava – como memória e semente – desde o início do show: “Estamos, meu bem, por um triz/ Pro dia nascer feliz”.

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