Instituto Sou da Paz revela que a região Nordeste vive a realidade mais crítica, com violência contra a mulher acima da média nacional
Raphael Guerra
Publicado em 08/03/2026 às 14:23
| Atualizado em 08/03/2026 às 14:29
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Quase metade das mortes violentas de mulheres no Brasil – incluindo os casos de feminicídio – foi cometida com o uso de arma de fogo em 2024, segundo levantamento do Instituto Sou da Paz. A região Nordeste apresentou uma realidade ainda mais crítica, com uma estatística bem acima da média nacional.
Os dados fazem parte da 5ª edição do estudo “Pela Vida das Mulheres: o Papel da Arma de Fogo na Violência de Gênero“, divulgada neste domingo (8). Foram analisados os homicídios de 3.642 mulheres, ocorridos em 2024, a partir dos dados coletadas pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.
A pesquisa indicou que 47% das mortes foram praticadas com arma de fogo. Embora tenha havido uma redução de 12% nas mortes por esse meio entre 2020 e 2024, o cenário não indica maior segurança: no mesmo intervalo, os feminicídios aumentaram 10%, e as agressões fatais dentro de residências por outros meios cresceram 16%.
Os dados revelam também uma disparidade de gênero na queda da violência nacional. Enquanto os homicídios de homens reduziram 15% no período analisado, os de mulheres caíram 5%.
DESIGUALDADE REGIONAL E RACIAL
O Nordeste apresentou o quadro mais crítico, concentrando 38% dos homicídios femininos do País. Na região, 62% das mortes foram causadas por armas de fogo, e a mortalidade por este meio é 3,2 vezes maior entre mulheres negras do que entre não negras.
Estados como o Ceará registraram índices alarmantes, onde 78% das mulheres assassinadas foram vítimas de violência armada. O Acre apresenta o menor percentual, com 8%.
A raça também determina o local do crime. Mulheres brancas são assassinadas majoritariamente em suas residências (46%).
Já entre as mulheres negras, há um equilíbrio maior entre as mortes em vias públicas (33%) e em casa (31%). Quando a arma de fogo é utilizada, o risco para mulheres negras em vias públicas sobe para 45%.
FEMINICÍDIO NA BOATE
A técnica em enfermagem Maria do Carmo Oliveira, de 34 anos, faz parte das estatísticas analisadas pelo Instituto Sou da Paz. Ela morreu depois de ser baleada várias vezes pelo ex-marido, o cabo da Polícia Militar Lindinaldo Severino da Silva, 39, na madrugada de 28 de julho de 2024. O casal estava separado havia um ano e meio.
O feminicídio aconteceu na boate Lounge Music, localizada no bairro de Piedade, Jaboatão Guararapes, no Grande Recife. De acordo com as investigações, Lindinaldo teria se apresentado na entrada da casa noturna como policial, não pagou ingresso e foi até o camarote open bar, onde estava a ex-mulher. Lá, encontrou a vítima com duas amigas e um rapaz. Durante uma discussão, os tiros foram disparados.
Depois de atirar na ex-mulher, o PM acabou rendido e agredido até a chegada da Polícia Militar, que o prendeu.
A coluna Segurança solicitou à Polícia Civil de Pernambuco e à Secretaria de Defesa Social o número de mulheres vítimas de feminicídio com uso de arma de fogo em 2024. Mas não houve reposta.
Como revelou a coluna, a SDS publicou portaria, na última sexta-feira (6), criando uma força-tarefa para tentar barrar o aumento dos casos de feminicídio no Estado.
O documento, assinado pelo secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, reconheceu que há “necessidade de monitoramento sistemático de indicadores e padronização de protocolos operacionais para maior efetividade das ações”.
COBRANÇA POR POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES
“A violência contra a mulher é um problema cotidiano, que resulta na morte de milhares de mulheres a cada ano no Brasil, esses homicídios resultam de dinâmicas diferentes e tem incidência bastante desigual no território brasileiro. Portanto, precisam ser prevenidos com políticas públicas específicas e integradas nos territórios”, afirmou Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
“A prevenção desse cenário depende da efetiva implementação de equipamentos da rede de proteção nos territórios onde vivem as mulheres, das delegacias especializadas aos centros de acolhimento, com acesso a medidas protetivas, e do fortalecimento do controle de armas como prioridade também no âmbito das políticas para mulheres”, completou.
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