A escritora portuguesa Lídia Jorge foi anunciada, nesta quinta-feira (2), como vencedora do prêmio Camões, o mais importante reconhecimento da literatura em português.
É a maior consagração da carreira da autora de 80 anos, que passou a ser editada recentemente no Brasil pela Autêntica Contemporânea. Nos últimos anos, a casa lançou seu novo romance “Misericórdia” e reeditou “Diante da Manta do Soldado”.
A portuguesa passou pelo Brasil no ano passado, quando foi convidada da programação da Feira do Livro, em São Paulo, e fez lançamentos em cidades como Brasília.
Antes, Lídia teve alguns de seus principais trabalhos editados na Record, como “O Vento Assobiando nas Gruas” e “A Costa dos Murmúrios”, romance que marcou sua carreira ao abordar a vida em Moçambique desconstruindo a narrativa colonial —e deve ganhar nova edição em 2027 pela Autêntica.
Sua obra também foi publicada pelo braço brasileiro da editora LeYa e pela Peirópolis, casa especializada em livros infantis, que lançou “A Instrumentalina”.
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Lídia nasceu na região do Algarve, no sul de Portugal, em 1946. Estudou filologia românica na Universidade de Lisboa e se tornou professora de ensino secundário —depois, deu aulas na faculdade em que se formou. Viveu em Angola e Moçambique ao lado do marido, o jornalista Carlos Albino, que era oficial do Exército português na época em que o colonialismo ruía.
O livro de estreia da autora, em 1980, foi “O Dia dos Prodígios”, fantasia que aborda a Revolução dos Cravos e foi recebida como abre-alas de uma nova fase da literatura portuguesa.
“Misericórdia”, de 2022, deu um novo fôlego à recepção de Lídia, se tornando um best-seller na Europa ao abordar um lar de idosos com atenção sensível à velhice, à morte e a uma jovem cuidadora brasileira. O romance tornou Lídia a primeira portuguesa a vencer o prêmio Médicis, atribuído a livros traduzidos ao francês.
“A sua escrita, marcada por uma prosa poética densa, aborda o passado ditatorial de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida cotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as rupturas familiares, com um estilo literário de forte carga lírica e foco na memória coletiva”, diz o comunicado do júri do Camões, afirmando que a decisão pela vencedora foi unânime.
É a terceira vez seguida em que o Camões reconhece uma escritora mulher –depois da angolana Ana Paula Tavares em 2025 e da brasileira Adélia Prado em 2024–, uma sequência inédita para o prêmio.
Lídia é a décima mulher a ganhar a premiação, realizada desde 1989. Já foram reconhecidas autoras fundamentais como Lygia Fagundes Telles, Sophia de Mello Breyner Andresen e Rachel de Queiroz.
A vitória da autora vai de acordo com uma tradição recente do Camões de alternar vencedores entre escritores brasileiros, portugueses e de países africanos lusófonos. O último português a levar o prêmio foi João Barrento, em 2023.
O reconhecimento pelo conjunto da obra inclui um prêmio de 100 mil euros (cerca de R$ 590 mil), concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, do Ministério da Cultura brasileiro, e pelo governo de Portugal.
A vencedora foi definida por um júri internacional formado por dois críticos brasileiros, dois portugueses, um angolano e um guineense, que cumprem mandatos bienais.
SAIBA QUEM FORAM TODOS OS VENCEDORES DO CAMÕES:
2026 – Lídia Jorge, Portugal
2025 – Ana Paula Tavares, Angola
2024 – Adélia Prado, Brasil
2023 – João Barrento, Portugal
2022 – Silviano Santiago, Brasil
2021 – Paulina Chiziane, Moçambique
2020 – Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Portugal
2019 – Chico Buarque, Brasil
2018 – Germano Almeida, Cabo Verde
2017 – Manuel Alegre, Portugal
2016 – Raduan Nassar, Brasil
2015 – Hélia Correia, Portugal
2014 – Alberto da Costa e Silva, Brasil
2013 – Mia Couto, Moçambique
2012 – Dalton Trevisan, Brasil
2011 – Manuel António Pina, Portugal
2010 – Ferreira Gullar, Brasil
2009 – Armênio Vieira, Cabo Verde
2008 – João Ubaldo Ribeiro, Brasil
2007 – António Lobo Antunes, Portugal
2006 – José Luandino Vieira, Angola
2005 – Lygia Fagundes Telles, Brasil
2004 – Agustina Bessa-Luís, Portugal
2003 – Rubem Fonseca, Brasil
2002 – Maria Velho da Costa, Portugal
2001 – Eugênio de Andrade, Portugal
2000 – Autran Dourado, Brasil
1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal
1998 – Antonio Candido, Brasil
1997 – Pepetela, Angola
1996 – Eduardo Lourenço, Portugal
1995 – José Saramago, Portugal
1994 – Jorge Amado, Brasil
1993 – Rachel de Queiroz, Brasil
1992 – Vergílio Ferreira, Portugal
1991 – José Craveirinha, Moçambique
1990 – João Cabral de Melo Neto, Brasil
1989 – Miguel Torga, Portugal














