Opinião – Claudio Manoel: Em um mundo de caixas de som que urram pelas ruas, o outro é invisível

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Opinião – Claudio Manoel: Em um mundo de caixas de som que urram pelas ruas, o outro é invisível


Final de ano chegando, já que não fiz nenhuma lista de melhores, piores, pedidos ou resoluções e, como a época permite, aproveito para, devagar, devagarinho… divagar.

Seja por conta da idade, do aniversário que, ainda bem, continuo fazendo, por acúmulo, incômodo, necessidade ou desejo, queria trazer à tona um tema que me é caro: o resgate e a revalorização do silêncio e do sossego.

No país do “os incomodados que se mudem” —uma versão popular do nefasto, “ame-o ou deixe-o”— se faz, cada vez mais, muito barulho por qualquer coisa.

Caixonas megablaster urram, porta-malas escancarados ostentam seus imensos e ridículos alto-falantes, a profusão metastática das caixinhas de som, que transforma cada sunga ou canga numa rave, todos juntos e colidindo, vomitando decibéis e cafonice em volumes mais insuportáveis que os repertórios.

Com isso, a paz e o convívio civilizado ficaram mais difíceis de ser encontrados, em nossas latitudes, do que um mico-leão-dourado cruzando com uma ararinha azul. Nunca nosso baixo nível educacional e analfabetismos diversos tiveram tanto ferramental para se “fazer ouvir”.

A conversa parece à toa, mas tem suas camadas. Lembra quando o velho Sartre produziu a frase que deu origem ao clichê: “O inferno são os outros”?

Aqui a situação é mais extrema: quando um brazuca, portando seu artefato sonoro, numa sala de espera, praia, ou na mesa ao lado, ouve seu áudio interminável ou seu hit insuportável, ele não quer te sacanear, ele nem percebeu sua existência.

Ele não te acha, filosoficamente, “infernal”. Ele nem sabe o que significa “filosoficamente”. Ele não quer te infernizar. Você, simplesmente, não existe. A “invisibilidade do outro” é um definidor do caráter nacional.

“Gente lesa gera gente lesa”. Se já fomos cordiais, não somos mais. A boçalidade, graças à representatividade, poder de vocalização, durabilidade e onipresença, adquiriu um certo lustro e, para uma determinada galera, ficou até sexy.

No “país do homicídio” —já fomos o “do futebol“, mas as estatísticas estão aí, acordem— parece ser muita falta de assunto perder tempo com algo tão pequeno e secundário.

Cada um com seu cada um. Você pode priorizar outras volumosas questões, mas meu divisor de águas é bem mais raso: sei que ninguém ouve alto algo que acha ruim. E o inferno pode ser também o lugar onde tem tanta zoada que não se ouve nada.



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