População cheia de dívidas recebe do governo federal um acréscimo ao pacote de bondades pré-eleitoral, sem que o problema seja resolvido
JC
Publicado em 05/05/2026 às 0:00
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O acesso ao crédito no Brasil disparou nas últimas décadas, lançando milhões de pessoas ao mercado de consumo. O efeito colateral dessa ampliação foi o aumento de endividados, a ponto de se comprometer a renda mensal em larga proporção com o pagamento de dívidas – e com a bola de neve de contrair novos empréstimos para quitar débitos antigos, com o agravante dos juros estratosféricos praticados no país. Além disso, o motivo do endividamento mudou, passando de itens de consumo, como geladeiras e aparelhos de TV, a gastos com serviços e itens de saúde ou educação, por exemplo. Sem contar com os direitos básicos garantidos, os brasileiros recorrem aos planos de saúde, muitas vezes separando uma parcela da renda para um tipo de despesa que deveria ser coberta pelo poder público.
Há um desgaste na economia que leva ao quadro geral de endividamento, com repercussões cruéis para a baixa renda, mas também envolve a classe média. Para piorar, os governos não contribuem para a formação de uma cultura de responsabilidade nos gastos, estimulando despesas dispensáveis e alimentando uma dívida pública tão grande que, segundo previsões da própria administração federal, pode inviabilizar a governabilidade a partir do ano que vem, faltando recursos para programas sociais e salários do funcionalismo. É esse o quadro que será entregue ao próximo governo, seja em novo mandato de Lula, seja para um adversário ou adversária que impeça a sua reeleição – no caso, para o quarto mandato com intervalos entre eles.
O atual presidente da República agrega uma nova medida ao pacote de bondades preparado com o objetivo de recuperar a popularidade que vem perdendo nos últimos anos. As pesquisas de intenção de voto apontam o desgaste de Lula, após três mandatos no Planalto, e a ascensão de candidatos de direita, sem que a chamada esquerda disponha de outros nomes para apresentar além do ícone petista. O lançamento do Desenrola 2.0 pelo governo federal apresenta o objetivo de reduzir as dívidas de cidadãos e de empresas, com o bônus da educação financeira, através da tentativa de conter a compulsão dos brasileiros endividados pelas apostas. A renegociação é uma palavra-chave na divulgação do programa, bem como a oportunidade de alívio para as famílias. Como não se sabe o que fazer para barrar novas dívidas, o novo Desenrola parece ter no horizonte eleitoral sua maior prova. O que ocorrerá depois de outubro, e na futura gestão, ninguém pode prever – porém todos podem ter que pagar.
A economia é um mosaico de encaixes e desencaixes. Um dos efeitos possíveis do apregoado fim da escala 6×1 na jornada de trabalho é o aumento do desemprego, com a demissão em massa que pode ser causada pela elevação do custo da hora trabalhada no país. E um dos principais fatores de endividamento da classe de renda baixa é a busca de complemento financeiro para suprir uma vaga de emprego perdida. O desemprego de um de seus integrantes leva ao endividamento familiar. Vê-se como o pacote de bondades na economia sempre tem um preço a pagar – e, via de regra, a conta chega com mais peso exatamente para aquela parcela populacional que aceita o benefício como uma benesse do governante da hora.
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