É a geopolítica acontecendo, como sempre. Um dos organizadores da Bienal de Veneza, que começa nesta semana envolta em polêmicas na cidade italiana, resumiu desse jeito, numa mensagem brevíssima, o estado das coisas. São palavras de uma leveza forçada, encharcada de resignação, mas Veneza, nesse caldo, ferve como nunca antes em tempos recentes.
Num misto de luto e fúria, a mostra vai se assentando sobre os canais. Luto porque a diretora artística desta edição da maior e mais tradicional exposição do mundo morreu pouco depois de anunciar seu conceito e não verá o resultado de seus esforços, além do luto generalizado por tantas vítimas em conflitos agora em curso pelo mundo. E daí a fúria daqueles que querem ver longe de Veneza representantes dos países vistos como os algozes do momento, Estados Unidos, Israel e Rússia encabeçando a lista.
Koyo Kouoh, a camaronesa à frente da mostra e também da escalação de seu corpo de jurados agora desfeito, primeira mulher de origem africana no cargo, falava em renunciar ao espetáculo do horror, pretendendo que sua mostra fosse uma tentativa de ouvir não os gritos mas os sussurros. Suas palavras sugerem, nesse amálgama de vozes, uma orquestração parecida com o jazz, de dissonâncias que se harmonizam.
Não há, porém, ninguém sussurrando, e a orquestra geopolítica em que se ancora a Bienal de Veneza está mais desafinada do que nunca. Diante da resistência dos organizadores a não barrar a presença dos representantes de Israel e Rússia, com o argumento de que seus líderes são acusados de crimes contra a humanidade, o corpo de jurados pediu demissão, forçando a mostra a dar o cobiçado Leão de Ouro a artistas escolhidos pelo público, medida inédita desde o século 19 que virou piada entre críticos.
A União Europeia cortou € 2 milhões, quase R$ 12 milhões, de verbas para a próxima edição. Ministros da Cultura de uma série de países, entre eles a Itália, disseram que vão boicotar a exposição, e o prefeito de Veneza ameaça lacrar o pavilhão russo caso os artistas façam o que chamou de propaganda —Nadya Tolokonnikova, a vocalista da banda punk Pussy Riot, famosa por protestos contra Vladimir Putin, já disse que vai armar uma briga contra russos no evento.
Quem também prepara um furdunço é o grupo Art Not Genocide Alliance, que arregimenta centenas de nomes num abaixo-assinado, incluindo alguns dos próprios artistas e curadores da mostra, e planeja um protesto para os dias de abertura, quando os VIPs ostentam seus looks de vernissage na nada serena Sereníssima.
O problema tem uma raiz clara, o elefante na sala que se faz agora mais presente do que nunca. Desde a era fascista, a Bienal de Veneza, por decreto da ditadura de Benito Mussolini que sobreviveu às trocas de governo, opera como um braço diplomático, em que Estados negociam sua presença em seus pavilhões apesar de sanções em vigor, algo que muda com a política da hora. Se antes a Rússia estava banida, por exemplo, na era de Giorgia Meloni, Putin tem alavancagem maior.
Na carta de sua renúncia, os ex-jurados da mostra disseram entender o mecanismo que estrutura a exposição e que os artistas e suas obras resultam indissociáveis dos países que representam. É uma afirmação controversa, mas tem lastro. Seria difícil, senão impossível ou arriscado, contrariar diretrizes de regimes totalitários quando a própria permanência de certos artistas em território italiano e a mensagem que suas obras carregam precisam estar a serviço de uma bandeira. Nada é simples. É só a geopolítica acontecendo.
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