É raro que uma autora viva tenha sua obra publicada por várias editoras ao mesmo tempo —ainda mais raro que ela ganhe um Nobel de Literatura nessa condição. Mas foi o que aconteceu com Anne Carson, com oito livros dispersos em quatro editoras brasileiras, todos em publicações recentes.
Carson, premiada nesta quinta-feira, se torna a primeira autora a enfeitar com um Nobel o catálogo de três casas independentes relevantes, a Bazar do Tempo, a Relicário e as Edições Jabuticaba.
Sua quarta editora, a 34, já publica o Nobel russo Ivan Búnin e é a única que tem um inédito da canadense confirmado nos planos para o ano que vem, “Wrong Norma”, o livro mais recente de Carson. As editoras dizem estar negociando a publicação de ainda mais livros.
Os últimos cinco ganhadores do Nobel já eram bem editados no Brasil no momento de sua premiação. Um ano atrás, o húngaro László Krasznahorkai tinha uma edição elogiada de seu “Satántángó” na Companhia das Letras —a editora prometeu mais três livros dele depois no Nobel e publicou apenas um até aqui, “O Retorno do Barão de Wenckheim”, em tradução recém-indicada ao Jabuti.
Há um reflexo do surgimento de editoras novas com bom faro para autores internacionais. A coreana Han Kang, vencedora de 2024, já tinha três livros publicados na Todavia quando foi premiada. Ganhou mais dois desde então.
Jon Fosse, laureado do ano anterior, já era distribuído na Companhia, na Tordesilhas e na Fósforo —editora que foi inaugurada em 2021 com a publicação de um livro de Annie Ernaux, consagrada com o Nobel do ano seguinte. Hoje, já são 13 os livros da francesa na casa.
Esse é o novo cenário. Antes era comum que houvesse, depois do anúncio do Nobel, uma corrida atrás dos direitos de autores quase desconhecidos na cena brasileira, como aconteceu com o tanzaniano Abdulrazak Gurnah em 2021 e a americana Louise Glück em 2020, ambos inéditos no Brasil até ali.
Os dois tiveram seus direitos arrematados pelo poderoso cofre da Companhia das Letras menos de um mês depois de serem reconhecidos pela Academia Sueca. Nos dois casos, a editora comprou quatro volumes do catálogo dos autores —e lançou apenas metade.
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No caso de Gurnah, foram publicados os romances “Sobrevidas” e “Paraíso” até 2023, enquanto “By the Sea” e “Desertion” seguem na gaveta. Obras poéticas de Glück como “The Wild Iris”, “Ararat” e “The Triumph of Achilles” também são da Companhia desde 2020, mas nunca viram a luz do dia.
A editora promete um novo livro de Krasznahorkai, “A Melancolia da Resistência”, para 2027. Mas ainda não tem data para o outro romance a que tem direito do Nobel húngaro, “Herscht 07769”.
UM CONTO CHINÊS Falando em apostas para o Nobel, a Fósforo já tem engatilhado outro livro da chinesa Can Xue, lembrada todo ano para o prêmio. Será uma coletânea de contos, depois do romance “Histórias de Amor no Novo Milênio”. “I Live in the Slums”, ou “eu vivo nas favelas”, está sendo traduzido por Aline Toffoli Martins, Peggy Yu e Verena Veludo Papacidero e deve sair no segundo semestre do ano que vem.
VELHO CHICO Uma biografia do rio São Francisco está sendo feita pelo potiguar Octávio Santiago, autor de “Só Sei que Foi Assim”, livro sobre a evolução do preconceito contra nordestinos no Brasil. Para a pesquisa, o jornalista tem percorrido o rio no sentido contrário à correnteza, de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia até Minas Gerais, colhendo histórias curiosas, escavando novos documentos e passando pelas obras de transposição. A Autêntica promete lançar no ano que vem.
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