Wagner Moura vem causando furor nas redes sociais desde sua participação no talk show Conversa com Bial, há duas semanas, por usar com certo humor a expressão “fascismo de esquerda”. Dias antes, João Bosco havia causado comoção semelhante ao dizer ao jornal O Estado de S. Paulo, dessa vez em tom mais sério, que “hoje em dia existe um identitarismo de forma muito exagerada pela própria esquerda no Brasil”.
Ator e músico têm algo em comum, além de serem dois dos principais expoentes da cultura do país —ambos são aliados históricos de pautas progressistas, que agora criticam parte da esquerda, campo que sempre defenderam.
“Eu apoio todos os movimentos identitários. Todos. Mas não a cultura do cancelamento. Acho covarde. Venha da direita ou da esquerda”, diz Moura, agora, em mensagem enviada à reportagem.
“O personagem que faço na peça ‘Um Julgamento’ é uma pessoa que foi cancelada. Mas errei ao chamar isso de ‘fascisminho de esquerda’. Não é um termo apropriado e é insensível ao fato de que são historicamente as minorias que sofrem a violência que caracteriza o fascismo.”
Nas guerras culturais, o termo “fascismo” perdeu seu sentido original, de nomear o movimento liderado por Benito Mussolini na Itália dos anos 1930, e passou a ser empregado como sinônimo de autoritarismo. Wilson Gomes, professor da Universidade Federal da Bahia e colunista deste jornal, crítico dos excessos do movimento identitário, reconhece uma brincadeira na fala do ator de “O Agente Secreto”, já que a palavra fascismo, historicamente, não se aplica à esquerda.
Seja como for, o comentário de Moura, diz Wilson, aponta para o fato de “que há um conjunto de pessoas muito intolerantes e muito autoritárias também nesta esfera ideológica”.
Esse fenômeno não está restrito ao Brasil. Em julho deste ano, John Cameron Mitchell, cineasta dos Estados Unidos que se identifica como pessoa não binária, afirmou ao jornal australiano The Australian que a política identitária “sofreu uma mutação de um esforço bem-intencionado em direção a uma sociedade mais progressista para um barril de pólvora de animosidade e guerras culturais”.
Outra artista alinhada com pautas progressistas que sofreu represálias por suas posições foi a atriz americana Susan Sarandon, dispensada por sua agência e banida informalmente de Hollywood após defender a Palestina. Curiosamente, ela diz não sofrer ataques da direita, mas da esquerda —principalmente por apoiar candidatos de terceira via, em vez de democratas, nas eleições vencidas por Donald Trump, e por supostamente não reconhecer seus privilégios por ser branca e rica.
Além dela, M.I.A., cantora britânica associada à esquerda por anos até se tornar uma apoiadora de Trump e dar uma guinada à direita, disse em entrevista ao The New York Times que a “máquina de guerra está dos dois lados”. Ao The Guardian afirmou que a esquerda deveria ter outras prioridades antes das políticas identitárias.
Estaria a esquerda farta de si mesma? Depois de anos de avanços de pautas centradas em grupos que são alvo de discriminação, teria chegado a hora da autocrítica? É o que muitos vêm questionando em tempos de acirramento de debates dentro dessa esfera política.
Essa minoria ruidosa, segundo o professor, adota uma postura de superioridade moral e de vigilância constante dos próprios parceiros, pronta a punir qualquer deslize com o cancelamento, um tipo de comportamento que dá munição para os conservadores.
Gomes acrescenta que essa cruzada moral não tem trazido avanços na política pragmática, a que ocupa o Congresso Nacional, dominado por partidos de direita. “Os conservadores conseguem fazer grandes bancadas.” Os progressistas, afirma, não convencem a população com sua tática de “chicote na mão e dedo na cara, atacando gente sobretudo que não é conservadora”.
No Conversa com Bial, Moura falou das críticas que recebe por ser rico, morar e trabalhar nos Estados Unidos e, ainda assim, se posicionar a favor da justiça social e de minorias. O baiano reproduziu argumentos usados contra ele, do tipo “não é gay e defende gay”, “não é preto e defende preto”, como se uma coisa anulasse a outra.
Figuras e portais de direita, ferrenhamente críticos ao ator, passaram a compartilhar trechos do talk show a fim de sequestrar as suas falas. Alguns que se identificam como sendo de esquerda, por outro lado, decretaram a “morte de um ícone” em publicações jocosas nas redes sociais.
Moura vem rodando a Europa com a peça de Cristiane Jatahy, uma montagem que parte de “Um Inimigo do Povo”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, e é apresentada como uma continuação. Nela, Moura interpreta um médico que denuncia a contaminação das águas das quais depende a economia de uma cidade.
O médico é levado a um tribunal contemporâneo. Parte da plateia vira júri e decide a cada apresentação se ele é ou não um inimigo, num tipo de dramaturgia que permite um paralelo com a cultura do cancelamento das redes sociais.
No caso de João Bosco —mestre da MPB que construiu uma obra marcada pela oposição à ditadura militar e um dos autores da canção “O Bêbado e a Equilibrista”, símbolo da campanha pela anistia—, ele afirmou ao Estadão que não aceitaria deixar de cantar o samba “Gol Anulado”, que fala de um marido que, ao descobrir que a mulher torce para o Flamengo, diz ter pegado o cinto e batido nela.
“Isso é uma crônica. Ela é feita dentro de um universo criativo, poético, ela não é um ato institucional, não é uma lei”, afirmou o cantor ao jornal. “As pessoas estão muito loucas, muito exageradas, estão precisando ser melhor medicadas. Tem que haver uma tolerância, um diálogo. Não pode ser essa coisa sectária.” Procurado, o músico não quis comentar o caso.
Lançada há 50 anos, “Gol Anulado” está inserida no caldo poético criado pelo violonista com seu parceiro Aldir Blanc no disco “Galos de Briga”, em que futebol se mistura com alcoolismo, violência, samba, sexo, religiosidade afro e o caos urbano do Rio de Janeiro, mais de 30 anos antes da Lei Maria da Penha.
Para além do comentário de Bosco sobre o identitarismo, muitos críticos apontam uma inadequação do verso —”quando você gritou ‘Mengo’/ no segundo gol do Zico/ tirei sem pensar o cinto/ e bati até cansar”— nos dias de hoje. Na visão de quem defende a retirada da canção dos shows do cantor, não fica claro na obra se ela faz apologia da violência contra a mulher ou tece uma crítica a isso. De todo modo, o fato de um autor adotar um ponto de vista específico numa canção não significa que ele o apoie.
O episódio rendeu diversas teses e análises no mundo da música. No site Farofafá, o jornalista Pedro Alexandre Sanches não defende “Gol Anulado”, que chama de “canção desastrada que criou teia de aranhas”, e lembra outras crônicas matrimoniais do mesmo álbum em que retratos de libertação feminina convivem com os de violência machista —como em “Incompatibilidade de Gênios” e “Feminismo no Estácio”.
Também jornalista especializado em música, Hugo Sukman publicou em sua página no Instagram uma foto de Elis Regina, célebre intérprete das músicas de Bosco e Blanc, cantando “Gol Anulado”, para dizer que ela “jamais gravaria uma canção que celebrasse a violência contra a mulher”. Ele afirma que a música, “em última instância, ‘denuncia’ o machismo brasileiro” e que, se o personagem fosse criado por Blanc hoje, diante da onda atual de feminicídios, “talvez matasse a mulher”.
Mariliz Pereira Jorge, jornalista, roteirista e colunista deste jornal que publicou um artigo sobre a fala de Moura, argumenta que é muito bom que hoje se trate de assuntos que há dez anos eram ignorados no dia a dia, como homofobia, racismo, feminismo e violência contra a mulher. “Estamos falando de coisas que precisam melhorar na sociedade, porque tem muita gente que sofre com essas questões”, afirma.
“A questão é quando esses mesmos assuntos passam a ser usados como arma de ataque”, acrescenta. Como roteirista da Globo, ela relata conviver com artistas do campo progressista que têm reclamado, nos bastidores e nas mesas de bar —mas não em público— desse fogo amigo. A patrulha exige dos seus alvos uma “necessidade doentia de pureza ideológica”, diz.
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No meio desses debates polarizados, John Cameron Mitchell ofereceu aos alunos de uma universidade em Boston, nos Estados Unidos, um conselho que resume seu incômodo —”parem de cancelar uns aos outros e façam mais sexo”.














