“Temos leis que nos protegem mais, mas é muito estranho ver que esses casos [de feminicídio] só aumentam”, diz Débora Falabella, em entrevista. A atriz volta a encenar os meandros da violência contra a mulher em “Pele de Rinoceronte”, filme que estreou na noite de domingo (16) no Festival de Gramado.
Em 2024, a atriz levou aos palcos brasileiros “Prima Facie”, monólogo premiado mundialmente, que discute as falhas da Justiça em julgar casos de estupro. Agora, com o filme, Falabella conta como os tribunais brasileiros trataram crimes de ódio contra as mulheres antes do feminicídio ser enquadrado no Código Penal, em tempos em que homens podiam matar sob a alegação de “legítima defesa da honra”.
Ela interpreta Helena, uma repórter que escreve sobre assassinatos de mulheres no Rio de Janeiro nos anos 1970. Solteira e independente, ela é fria em relação as vítimas, uma consequência do machismo que contaminava a discussão pública na época. As mulheres eram culpadas de suas próprias mortes, acusadas de provocarem os assassinos.
A sensibilidade de Helena começa a mudar quando ela passa a ser perseguida pelo próprio editor. Para escapar do assédio, ela viaja até a praia onde é investigado um assassinato que chocou o país. Um empresário matou a namorada com quatro tiros, todos na cabeça.
Falabella divide o protagonismo com Naruna Costa, que dá vida, em uma trama paralela, a advogada Maria Thereza. Junto ao marido, vivido por Irandhir Santos, ela prepara a acusação contra o assassino do caso famoso.
“Pele de Rinoceronte” é inspirado no caso de Ângela Diniz. Socialite assassinada em 1976, seu julgamento se tornou um marco na luta contra a violência de gênero no país. Após o empresário Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street, receber uma pena branda pelo crime, a mobilização do movimento feminista levou a um novo julgamento que o condenou a 15 anos de prisão.
“Vejo minha personagem como um paralelo da Ângela, mulher que queria viver livremente de uma forma que a sociedade não compreendia”, diz Falabella.
Ao contar as histórias de Helena e Maria Thereza, entrelaçadas pelo crime que investigam, o longa de Marcello Ludwig Maia elabora sobre as circunstâncias que levaram o feminicídio a ser caracterizado como crime no Brasil.
“Hoje o feminicídio tem nome. Antes, as mulheres eram mortas, mas esse nome não era dado”, reflete Falabella, que faz um paralelo com o número alarmante de crimes contra a mulher registrados anualmente no Brasil de hoje. “A sensação é de enxugar gelo”, lamenta.
Maia cresceu com as tias progressistas e advogadas nos 1970. Heleno Fragoso, advogado que atuou na acusação de Doca Street, era casado com uma delas. Foi assim que um dos casos mais emblemáticos e brutais do país marcou as conversas dentro da casa do diretor.
“Considero esse o grande tema brasileiro. Enquanto não pararem de matar as mulheres, não vamos a lugar algum”, diz Maia.
“As violências sutis são muito presentes no filme, e as personagens vão despertando ao longo da história. Espero que a plateia vá se identificando também, e se posicionando de forma não conformista”, diz Costa, que vive Maria Thereza.
Na cena mais potente do filme, sua personagem ensaia a acusação do assassino que fará no tribunal. O fim do monólogo em cena foi ovacionado por aplausos de um cinema lotado no Palácio dos Festivais.














