Manifesto cobra mais pluralidade no ensino público de nível superior no Brasil, em defesa de visões diferentes e da neutralidade institucional
JC
Publicado em 12/05/2026 às 0:00
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Com base em panoramas semelhantes em outros países, um grupo de professores e pesquisadores brasileiros apresentou, no mês passado, um manifesto que pode ser assinado por integrantes da comunidade acadêmica, inclusive estudantes, e pela população em geral. O documento que pode ser lido na íntegra em www.pluralismoacademico.org faz recomendações para pôr fim ao que chama de “crise de reputação” das universidades públicas, e lança propostas focadas “na neutralidade institucional, na proteção ao dissenso e na valorização do pluralismo curricular”.
Em sua coluna na Folha de S. Paulo, o professor titular da Universidade Federal da Bahia, Wilson Gomes, comentou a iniciativa, atrelada a uma realidade experimentada há muitos anos no mundo acadêmico nacional – o fechamento de horizontes por questões de ideologia. “A universidade existe não para disputar poder, ensinar doutrinas ou mobilizar identidades, causas e paixões, mas para submeter ideias e evidências ao teste público da razão, do método e da crítica. Defendê-la é recusar a condescendência diante de práticas que a impedem de ser, como queria Darcy Ribeiro, autônoma em todos os sentidos: livre de tutela política, imune à instrumentalização ideológica, resguardada do clientelismo e da mediocridade”, escreveu o professor, que é autor do livro “A democracia no mundo digital – História, problemas e temas”, publicado pela Editora Sesc-SP.
O manifesto cita pesquisa do ano passado, da Quaest, segundo a qual mais da metade dos entrevistados afirmam que confiam pouco ou não confiam na universidade pública, acham as universidades privadas melhores, e acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade. A percepção é qualificada como distorcida, pois a formação profissional, científica e tecnológica de excelência continua sendo feita no âmbito do ensino superior público no país. Mas reconhecem “a dificuldade que as universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes — o que alimenta o entendimento de que se dedicam mais à militância política”.
Com o objetivo de combater essa visão equivocada e as práticas que a incentivam dentro das universidades, o documento enxerga a necessidade de fortalecimento de três pilares na universidade brasileira: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo. É quase como um choque de democracia em institucionais que viram surgir muros em seus domínios, impedindo ou restringindo o debate, em cercos ideológicos que chegam a gerar e disseminar intolerância e violência num ambiente supostamente impenetrável a tais danos, que sufocam a pesquisa científica e a renovação do conhecimento.
Algumas propostas emergem para tanto. Pela neutralidade institucional, o fim de posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas. Pela liberdade, a criação de uma cultura organizacional pró-dissenso. Pelo pluralismo, regras isonômicas para portas abertas a todos. Sem essas defesas, o ecossistema universitário brasileiro continuará sujeito à desvalorização e à falta de legitimidade para os cidadãos, o que pode provocar consequências ainda piores do que a radicalização, com prejuízos dentro e fora do ambiente acadêmico.
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