Pesquisa com 23,2 mil usuários das motos por aplicativo mostra que a consciência sobre os riscos não é suficiente para conter o perigo nas ruas
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– Roberta Soares/JC
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Praticamente seis em cada dez profissionais que utilizam a motocicleta por aplicativo para trabalhar ou como transporte urbano — condutores de motoapp, entregadores e passageiros — já sofreram algum sinistro de trânsito (não é mais acidente de trânsito que se define, segundo a ABNT e o CTB). O percentual de 59,8% é um dos resultados centrais da pesquisa realizada para o lançamento do Movimento Nacional Brasil Duas Rodas e expõe o tamanho do risco associado ao modelo de transporte que se expandiu de forma acelerada nas cidades brasileiras, puxado por serviços de entrega e, principalmente, de transporte de passageiros por aplicativo, como o Uber Moto e 99 Moto.
O levantamento foi realizado pelo IQG – Instituto Qualisa de Gestão, pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e pela Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiesp), e apresentado durante a realização da Cúpula Nacional Movimento Brasil sobre Duas Rodas, realizada no dia 10/9, em São Paulo. Ao todo, 23.240 pessoas responderam à pesquisa nacional realizada em 27 estados, sendo 21.832 delas motociclistas que usam a moto como ferramenta de trabalho — o recorte que sustenta os principais números divulgados.
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– JC/IMAGEM

– JAILTON JR./JC IMAGEM
Um dos achados mais relevantes do estudo é que o problema não está na falta de informação sobre os riscos do veículo sobre duas rodas ou da consciência sobre a segurança no trânsito. A Vértea – Academia de Estudos Avançados em Saúde Sustentável, núcleo do IQG – criou o Índice Global de Cultura de Segurança, e a dimensão individual — que mede a consciência do risco e a confiança do motociclista em sua própria capacidade de agir com segurança — obteve nota 91,3, considerada extremamente alta.
Isoladamente, a consciência dos riscos chegou a um percentual ainda maior: 96% de 100. Ou seja, a pesquisa deixou claro que o motociclista sabe, portanto, o que é uma condução segura e reconhece o perigo a que está exposto. Uma conclusão que evidencia que apostar apenas em campanhas educativas não vai mudar o cenário de violência viária no País, onde o trânsito mata 35 mil pessoas por ano, das quais entre 15 mil e 16 mil são ocupantes das motos.
Os desafios da regulamentação do serviço de motoapp ficaram claros no diagnóstico nacional apresentado. “O problema não é conscientizar o condutor de duas rodas. É muito maior. Estamos vivendo um novo modelo de trabalho que levou muitos profissionais a procurar as plataformas de entrega e transporte de passageiros como uma alternativa de emprego. E hoje temos o desafio de regulamentar esse novo modelo de trabalho, encontrando uma forma de proteger esses usuários das motocicletas e a segurança no trânsito do Brasil”, alerta a presidente do Conselho Executivo da Vértea, Mara Machado.
AUTOCONFIANÇA SE SOBREPÕE AO MEDO DOS RISCOS
O levantamento também aponta que os usuários apostam na autoeficácia: 86,6% dos entrevistados afirmaram ter confiança de que saber lidar com o risco – uma postura que termina funcionando como um combustível para comportamentos mais arriscados no tráfego.
O Índice Geral de Cultura de Segurança do País, que combina as três dimensões da pesquisa — indivíduo, grupo e sistema —, ficou em 65,1 pontos, numa escala de 0 a 100, classificado como moderado. A metodologia parte do princípio de que a segurança no trânsito não depende só de decisões individuais: também é moldada pela pressão de colegas e clientes e pelas condições estruturais em que o trabalho acontece.

Quase 60% dos motociclistas profissionais já sofreram sinistro de trânsito, aponta pesquisa nacional – Arte
É justamente na dimensão de grupo que aparece um resultado preocupante e que precisa (e deveria) ser explorado pelas plataformas de mobilidade urbana – como Uber e 99 – e o poder público brasileiro. As normas sociais percebidas pelos motociclistas são altas, com 85,3 pontos — ou seja, o grupo profissional reconhece coletivamente o que é certo fazer. Mas a influência social, que mede o quanto esse ambiente de fato pressiona o comportamento individual, ficou em apenas 41 pontos, um percentual considerado moderado como efeito de restringir a adoção de práticas seguras. Ou seja, o discurso do que deveria ser feito nem sempre se traduz em prática coletiva nas ruas.
HORAS SOBRE A MOTO E OS IMPACTOS DISSO


As pressões econômicas, com 46,7 pontos, aparecem como fator que restringe diretamente a segurança do uso do veículo sobre duas rodas: motociclistas profissionais relataram jornadas extensas sobre duas rodas, reflexo direto da lógica de remuneração por corrida ou entrega. Do total de entrevistados que trabalham com moto, 84,7% passam seis horas ou mais por dia pilotando, e mais da metade dos ouvidos (53%) ficam nove horas ou mais em circulação — tempo de exposição ao tráfego que, somado à pressão por produtividade, potencializa os riscos para o sinistro de trânsito.
O recorte por estado também traz elementos para o debate regional. Paraná e Piauí lideram o Índice Geral de Cultura de Segurança, com 66,3 pontos cada, enquanto o Acre aparece na última posição, com 61,2. Pernambuco registrou índice de 64,7 pontos, percentual de sinistros de trânsito ligeiramente abaixo da média do País: 49,9% dos motociclistas profissionais pernambucanos afirmaram já ter se envolvido em algum episódio, enquanto no Brasil esse percentual foi de 59,8%.
Os números reforçam um ponto que tem ganhado espaço no debate sobre a regulamentação do transporte de passageiros por moto de aplicativo nas regiões metropolitanas: treinar e conscientizar o motociclista, por si só, não resolve o problema de segurança viária. Enquanto o modelo de remuneração e a organização do trabalho continuarem pressionando por jornadas mais longas e ritmo mais intenso, a exposição ao risco tende a se manter — e cabe também ao poder público e às próprias plataformas de mobilidade discutir mudanças estruturais nas condições em que essas pessoas usam a moto nas cidades do País.













